RIO -Juin 2006

Accueil ] Remonter ] SARAGOSSE - octobre 2011 - Introduction ] SARAGOSSE - Octobre 2011 - Conclusion ] BARCELONE - 11 mars 2011 ] BEJAR-PLASENCIA - octobre 2008 ] PORTUGAL - Avril 2007 ] RECIFE - Novembre 2007 ] PORTUGAL - 28-29 mars 2007 ] SALAMANQUE - 19-20-21 Octobre 2006 ] [ RIO -Juin 2006 ] CHAVES - Avril 2006 ] SAO PAULO - Sept 2005 ] MONTEVIDEO - mai 2005 ] MADRID - mars 2004 ] MEDELLIN - juillet 2003 ] GIJON - novembre 2002 ] LES RELATIONS DIFFICILES... ] L'ANIMATION SOCIOCULTURELLE ] QUELLE THEORIE POUR L'ANIMATION ] L'ORIENTATION DE LA RECHERCHE ] LA DEMARCHE PRAXEOLOGIQUE ]

 

A Recreação e o Lazer  na França: que perspectiva ?
Rio, Juin 2006

 Jean-Claude Gillet

Professor emérito em ciências da educação,
Universidade Michel de Montaigne (Bordéus 3)

Version Adobe.pdf téléchargeable

Muitos sustentam, o que parece certo, que a recreação sócio-cultural é uma noção e uma prática de origem francesa. Esta «especialidade», como um prato de culinária local, pode ser assim designada por estar ligada à história da República francesa e, antes de tratar das perspectivas para o futuro, devemos lembrar, como escreveu E. Durkheim, que « o futuro não se improvisa ; só se pode construí-lo a partir dos materiais que temos do passado ». Aqui, é necessário evocar rapidamente, em especial, a história da Educação Popular para compreender a atual existência de mais de 150.000 recreadores profissionais. Trata-se de que história? Como se passou da Educação Popular à recreação sócio-cultural e depois à recreação simplesmente?  Que vínculos foram estabelecidos entre as noções de tempo e de lazer? Quais são os recursos educacionais atuais, dentro de um contexto de “mercadorização” generalizada ? Tentaremos responder a estas perguntas a seguir.

 

A França revolucionária e o modelo republicano

O texto apresentado em 1792 pelo marquês Condorcet, então deputado da Assembléia francesa, que tratava de um projeto de reforma do Ensino Público é, por muitos considerado como o texto fundador da Educação Popular, mesmo se observarmos que se limita a uma instrução que não podemos confundir hoje com o campo mais amplo da Educação Popular. Em todo caso, é ao seu autor, convencido de que se tratava do desenvolvimento infinito das ciências, que devemos essa tese segundo a qual o progresso intelectual e moral da humanidade podia ser assegurado pelo fato de se instruir, ou seja, como explica um recente dicionário francês « seguir um ensinamento e adquirir conhecimentos ».

Séculos depois, pode-se dizer que Condorcet foi duplamente infeliz, uma vez que, por um lado, aprisionado desde essa época da Revolução que foi chamada de « La Terreur » (O Terror), se suicidou para escapar à guilhotina, e por outro, porque o século XX reprovou seu otimismo em associar progresso científico e progresso moral.

 

Condorcet defende o ensino livre, popular, gratuito, aberto a todos, porém não obrigatório, tendo como objetivo a idéia de que o ensino compartilhado combate as desigualdades e injustiças sociais. Ao longo dos séculos XIX e XX, essa orientação da educação popular, de saber formar espíritos que se libertaram através do acesso ao conhecimento (ao contrário do escravo que morre na ignorância) foi uma extensão da filosofia das Luzes, que defende a predominância da razão sobre o dogma, a única condição que torna o homem capaz de transformar o universo, quando se liberta dos preconceitos, controlando a religião, a moral e a política através de seu pensamento racional. Eu penso aqui, nos autores da Enciclopédia, em Voltaire, Diderot, Rousseau, Montesquieu, D’Alembert, etc.

Mas o fim da República irá culminar com a chegada de Napoleão Bonaparte e, sobretudo com o segundo Império que irá reforçar a influência da Igreja católica.

 

A concorrência entre os grupos: o nascimento do projeto de educação popular.

A derrota de Sedan e da Comuna de Paris (1870 e 1871) acentuam divergências políticas e, os republicanos, depois de uma década de incertezas, buscam, com as leis de 1882 que regem o ensino, a de 1901 regendo as comunidades e a de 1905 que trata da separação da Igreja e do Estado, da oposição à influência da Igreja, a fim de estabelecer uma República duradoura.

O ensino público torna-se obrigatório, mas ao mesmo tempo a educação popular e os jovens passam a ser um recurso político: pouco a pouco, inúmeras organizações diversificadas vão ser criadas sobre a marca da Igreja e a da Escola, em meio a uma concorrência que logo se transforma em um conflito que não terá fim até meados do século XX.

Três grupos vão surgindo aos poucos: o primeiro é o da doutrina católica para moralizar os jovens operários depois da Comuna de Paris. A publicação da circular Rerum Novarum em 1891, condenando, ao mesmo tempo, o liberalismo econômico e o socialismo; o segundo é o da doutrina popular, fundado por Jean Macé que, apesar de católico, deseja « que o país se proteja com uma rede de associações republicanas e abra caminho para a civilização ». Inúmeras obras extracurriculares vão então ser criadas como trampolim para a Escola Pública, obras que se inscrevem dentro de um projeto de educação popular, que ultrapassa o campo fechado da escola, para se abrir ao exterior; depois, um terceiro grupo socialista irá se formar em oposição à Igreja, assim como aos republicanos intelectuais. A estruturação de partidos e sindicatos e a direção dos municípios na periferia operária irão reforçar essa corrente ao longo de toda a primeira metade do século XX.  

Para os últimos, democratizar a cultura, significa assegurar o funcionamento e o caráter duradouro da democracia política.

Assistimos dessa forma, pela primeira vez na história, múltiplas iniciativas da sociedade civil que, propõe e coloca em prática projetos educativos competitivos que se identificam com os três mais importantes grupos ideológicos do país. São organizações nacionais que têm vontade de mobilizar a massa, procurando obter o máximo de influência sobre a direção da sociedade: as instituições que elas agrupam vão se desenvolver em todo o território, demarcando-o e propondo práticas e representantes das classes sociais.

Primeiramente, é uma ação social de rua ou de bairro, em base territorial com a criação de grupos, bibliotecas, associações familiares e a difusão de uma imprensa representativa no plano nacional. Depois vem a ser uma organização de reagrupamentos de massa onde cada grupo  exibe um espetáculo, estreitando os laços entre seus militantes através do desdobramento de técnicas de propaganda (desfiles, peregrinações, reuniões, festas) e da utilização de rituais minuciosos, de cores, hinos, cantos, fantasias e uniformes, em suma, por todo lado um universo de simbolismos. Enfim, é a elaboração progressiva de doutrinas coerentes, sustentadas por sistemas de pensamento tais como o personalismo cristão, o racionalismo e o marxismo que propõem a realização de um tipo humano abstrato e conforme : o religioso, o cidadão e o militante.

Cada rede funciona com base no trabalho voluntário: os atores trabalham fora de seus horários e em função de sua disponibilidade devido a seu capital cultural e posição social.

A patronagens e as colônias de férias irão se desenvolver, depois os movimentos de jovens entre as duas guerras, assim como os diferentes grupos de escoteiros e os albergues da juventude. Os primeiros grupos de teatro aparecem, assim como os cineclubes. Devemos observar aqui que essa efervescência está relacionada aos eventos mundiais: a crise econômica de 1929, que acaba com as convicções sociais,  a revolução russa, depois a guerra da Espanha, a ascensão do nazismo e do fascismo que favorecem a ascensão do pacifismo na França e do internacionalismo em outros lugares, o surgimento das Frentes Populares na França e na Espanha. Na França é criado uma Sub-Secretaria do Estado de Esportes e Lazer com Léo-Lagrange. As práticas dos jovens se tornam doravante objeto da atenção do Estado. As primeiras subvenções são alocadas às associações e o primeiro diploma esportivo é criado, intitulado « Brevet Sportif Populaire » (Diploma Esportivo Popular).

Essa efervescência não é apenas política, social ou ideológica, é também cultural : após o dadaísmo, é o surrealismo, com Aragão, André Breton, Paul Eluard, Benjamin Péret, mas também Dali e Picasso, para mencionar apenas os mais conhecidos.

Porém essa história não deve camuflar os conflitos que se revelam sobre a definição daquilo que deveria ser a Educação Popular.

 

 

Do que estamos falando quando falamos de Educação Popular?

Estando a escola encarregada do ensino público, os três grupos que descobrimos propõem uma formação integral que visa à vida real, concreta e total do jovem. Nesse jogo, as famílias se encontram, em parte despojadas de seu papel educativo tradicional ; são levadas a confiar suas crianças e seus jovens a novas organizações de supervisão. As últimas, graças a uma verdadeira divisão institucional das cidades, procuram estender sua influência e fazer com que os jovens participem de seus interesses particulares.

A educação popular pode então ser definida como uma marcha voluntária, um ato, uma ação que permite aos indivíduos acesso aos conhecimentos, a uma cultura, a uma função dentro da sociedade. Cada um deve dispor de ferramentas e recursos para compreender essa sociedade. Cada um deve se tornar um cidadão e tomar seu lugar no espaço republicano. É o princípio previsto na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Artigo 6 : « Todos os cidadão, sendo iguais a seus olhos, são igualmente admissíveis em todas os cargos honorários, lugares e empregos públicos, de acordo com sua capacidade e sem outra distinção senão aquelas relacionadas a suas virtudes e talentos».

Isto dá o significado da palavra educação, mas o termo popular permanece ambíguo: por um lado, porque as classes mais populares da sociedade não foram os elementos de vanguarda e dinamismo dos movimentos de educação popular.  Os laços destes últimos com a classe operária eram dos mais estreitos e, muitas vezes, os organizadores do movimento são os burgueses instruídos, os líderes representantes da aristocracia operária, os professores e, em maior número, os intelectuais.

Enfim devemos também insistir no fato de que se todos esses atores puderam se organizar, foi graças à existência da lei que rege as associações, sem a qual tal evolução não teria sido possível. Um milhão de associações registradas, com cerca de 12 milhões de militantes, voluntários, mais de 20 milhões de adeptos (sobre 62 milhões de habitantes), tais números não teriam sido alcançados na França sem essa lei republicana chamada « loi 1901 », cujo nome é o do ano em que foi votada.

Essa lei preconiza o exercício de uma solidariedade intermediária que favorece a educação de cidadãos livres, conscientes e responsáveis, permeada por uma abordagem individual e social: «  Cada um é doravante livre para se associar, não se associar, não mais se associar » (J .C. Gillet, 2001).

Sem essa lei, nem a educação popular, nem a recreação sócio-cultural teriam conhecido tal êxito.

 A vida comunitária permite uma aprendizagem de ajuda recíproca, o reconhecimento mútuo entre pessoas, a procura da solidariedade. Ela funda uma moral que nega o individualismo egoísta. É esta « res publica », a coisa pública que emerge de uma educação, de uma tomada de consciência (que vem do latim cum-scire, que quer dizer saber em comum, saber compartilhado) permitindo o desenvolvimento do julgamento pessoal. Ao contrário, o homem inconsciente é aquele incapaz de ter um julgamento autônomo. Se essa educação pode ser feita dentro de uma instituição obrigatória, a escola, pode também ser cumprida dentro de uma organização voluntária, a comunidade.

 

A Educação popular à prova da gestão.

Após a segunda guerra mundial, a intervenção do Estado se reforça e todos os setores chamam uma reconstrução da França. Os diferentes seguimentos administrativos desse Estado são objeto de demandas prementes por parte das organizações de jovens e de educação popular. A máquina vai se formando e pouco a pouco a oferta pública é substituída pela oferta privada e esse sistema funciona a pleno vapor para fazer frente à ascensão dos jovens e à  forte urbanização do período de 1962-1974.

O que faz o « sistema » dentro desse conjunto, é o comprometimento dos grupos civis em sua constituição e a forte presença do Estado e das comunidades territoriais. A novidade vem antes do planejamento dos aparelhos em todas as zonas urbanas em construção (que se tornaram, depois de quarenta anos, nas zonas onde se concentram todas as populações pobres, de onde, alguns entre os mais jovens fazem falar se si próprios sob a rubrica « fatos diversos » na imprensa televisual, por razões de tráfico ilícito, de respostas algumas vezes violentas à polícia ou outras facções, fazendo demonstrações em seu território e, algumas vezes, « nas manchetes  » das páginas políticas da imprensa como foi o caso durante as revoltas de certos bairros populares em outubro-novembro de 2005). Desde 1958, com a chegada do general de Gaulle, são milhares os aparelhos formados, concomitantemente com as torres ou cercados onde irão ser alojadas pessoas vindas das favelas destruídas aos poucos, imigrantes vindos como operários na França industrial a altas taxas de crescimento e em seguida os «  pieds-noirs », franceses repatriados da Algéria no final da guerra com essa colônia ou depois da Independência algeriana: aparelhos escolares, esportivos, educativos, culturais, sociais.

As federações de educação popular, os movimentos, aos pouco vêm aceitar as propostas do Estado e lhe oferecem a gestão plena desses aparelhos. Esta tendência favorece a uma lógica profissional no interior das novas instalações sociais e culturais mais que à antiga lógica militante que tinha por característica essencial o espaço público, ou seja, a rua. Com freqüência, caracterizamos esse período como sendo aquele do « tempo da cogestão » entre as Federações de jovens e de educação popular e o Estado.

É assim que aos poucos vai aparecendo o novo corpo de profissionais chamados de « recreadores sócio-culturais ». Eles tomaram o lugar dos militantes e voluntários (mesmo sendo os militantes e voluntários que vão doravante poder fazer de sua paixão um negócio). Entre 1964 e 2005, irão aparecer formações, diplomas, uma convenção coletiva de trabalho, um canal administrativo entre os corpos de funcionários das comunidades territoriais, um outro dispositivo no setor hospitalar, etc.

 

O desenvolvimento dos centros de lazer urbanos

Junto com os aparelhos sócio-culturais e dispositivos sociais, deve-se também levar em conta a multiplicação dos centros de lazer no espaço das cidades. Para crianças e jovens urbanos, as federações de educação popular, em seguida as municipalidades e empresas, criaram depois de muito tempo centros ao ar livre e de férias, mas a tendência recente é uma transformação dessas instituições em centros de lazer sem alojamento, os CLSH, também organizados pelas comunidades locais. Agora que assistimos uma queda de partidas para centros de férias, as afiliações nos CLSH não param de crescer, passando de 1 milhão de jovens em 1977 a 4,5 milhões em 2005. A progressão dos CLSH além de estar ligada, à escolarização massiva de jovens e reorganizações urbanas, à necessidade dos jovens e das reorganizações urbanas de oferta de benefícios nos períodos fora da agenda escolar. Praticamente, todos os municípios situados em uma área metropolitana organizam ou subsidiam as atividades de lazer para jovens, a partir de um sistema de recreação político-administrativo local.

O enquadramento desses centros é assegurado por 250.000 recreadores, antigamente chamados de monitores, que seguiram uma formação de curta duração correspondente a um curso técnico que na França é chamado de BAFA (diploma de aptidão nas funções de animador). Essa formação portanto não é vista como uma profissão na medida em que apenas uma pequena parte dos titulares desse diploma (50.000 diplomados por ano) é chamada a trabalhar de forma permanente no setor de recreação. Ela corresponde a um procedimento de compromisso e, com freqüência, a uma primeira forma que os jovens têm de exercitar a responsabilidade. Também é, e hoje de maneira mais estável, um aporte financeiro não-negociável, tanto para os jovens recreadores como para as estruturas de formação que os inscrevem.

Acaba de ser votada uma lei, em janeiro de 2006, em primeira leitura na Assembléia nacional que regula o estatuto jurídico desses recreadores de temporada, reagrupando-os na categoria dos voluntários, ou seja que os distingue definitivamente dos recreadores profissionais, e que relevam outros dispositivos jurídicos e estatutários associados ao código de trabalho permanente.

Para as outras faixas etárias, e em particular para os idosos, os clubes e salões de recreação se multiplicaram nas cidades e oferecem um nicho importante de emprego. Ainda nos falta abordar os cargos ligados às atividades culturais e esportivas que necessitam cada vez mais de recreadores profissionais.

Assim, num espaço de quarenta anos, a recreação urbana se firmou e pode ser apresentada como um sistema, com suas instituições, aparelhos e atores. Este sistema, situado ao lado daquele da Educação nacional, interessa prioritariamente às crianças, aos adolescentes e jovens, mas também às outras faixas etárias. Como resultado da consolidação de diversas ações, ele associa as obras privadas, associações e aparelhos e, mais recentemente, usa os dispositivos iniciados pelo Estado e pelas comunidades locais. Um sistema complexo e enraizado na história social do país, parece mais flexível que o da Educação nacional e pode ser considerado como um  conjunto intermediário de ações e desenvolvimento cultural que age sobre o registro triplo da regulação, da promoção e da valorização

.

As múltiplas interpretações a cerca do surgimento da recreação sócio-cultural

Pouco importa a origem precisa de próprio termo. É necessária uma inspiração ideológica cristã ou leiga? Uma criação de universitários ou de profissionais? Ninguém pode realmente responder essas perguntas de maneira categórica. Quanto a dar uma definição de recreação sócio-cultural, o título do primeiro capítulo de minha primeira obra era justamente « a definição inencontrável » (Gillet, 1995) !

Por outro lado, o que sabemos precisamente é que os primeiros profissionais da recreação sócio-cultural surgiram no final dos anos cinqüenta e início dos anos sessenta e que uma estimativa do Ministério da  Juventude anuncia um número de 5000, em 1965. No ano 2000, o número de profissionais da recreação (seja sócio-cultural, social, sócio-educativo, turístico, cultural ou esportivo, etc.) é estimado entre 150 000 e 200 000 com contratos de duração indeterminada de direito privado em tempo integral ou de estatutos de funcionários titulares de comunidades territoriais. O INSEE (Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos) confirma que a profissão de animador é uma das mais dinâmicas em seu desenvolvimento, pois seu crescimento foi de 93% entre os dois recenseamentos de 1990 e 1999.

É realista ao considerar que todo um conjunto de causas presidiram o nascimento dos recreadores sócio-culturais e que dessa forma penetraram em todos os domínios de ação na França (com exceção das Forças Armada e da Educação nacional). Lembremos portanto que a recreação seria historicamente o resultado da conjunção, da interação entre uma militância e uma política gaulista, que lhe deu corpo através do estabelecimento de administrações e de meios específicos, que correspondem ao mesmo tempo da passagem de uma concepção fechada da cultura a uma opção mais aberta, com vistas a um controle melhor da sociedade pelos próprios indivíduos, em direção a sua emancipação coletiva.

Pode-se também entender a recreação como um fenômeno que corresponde à ascensão ao poder das civilizações de lazer, para retomar aos termos desenvolvidos nos anos sessenta e subseqüentes pelo sociólogo Joffre Dumazedier. Suas teses são conhecidas e prolongadas por novos trabalhos ainda hoje, no Brasil, Uruguai e na Argentina acerca dos conceitos de lazer e de recreação. Voltaremos a esse assunto mais tarde.

Causas mais sociológicas seguiram: o desenvolvimento da sociedade de consumo, o urbanismo acelerado, o aumento da demanda por lazer, os primeiros traços de delinqüência juvenil, os bandos de jovens e de marginalidade social se manifestam e o impulso da recreação seria ligado à tomada de consciência dos descontentamentos da civilização urbana diante da ascensão da anomia social. O voluntário não é mais suficiente e tampouco o é a recreação espontânea : parece que, daqui em diante, são necessários verdadeiros profissionais.

Enfim, é indispensável enfatizar também que a recreação sócio-cultural é, na França a revelação da expressão das classes médias ascendentes nos anos 60/70 pela ocupação do terreno da cultura cimentando assim sua unidade : oriundos dessas classes sociais, esses militantes que, com freqüência, pertencem ao mundo das associações, do sindicalismo, estudantes ou professores, dos quadros das organizações operárias ou de partidos políticos de esquerda, dos técnicos, engenheiros, intelectuais, funcionários irromperam sobre o domínio político em maio de 1968 e, posteriormente, após o fim do movimento social daquele ano (chamado algumas vezes de « la révolution manquée » - « a revolução fracassada ») ingressaram nos conselhos administrativos e escritórios de aparelhos culturais, sociais, educativos, nos bairros que acabavam de ser construídos e onde, já na época, se assemelhavam aos alojamentos coletivos das classes médias e populares (o que hoje é nitidamente menos o caso, pelo fato que um número desses membros de classes médias tornaram-se proprietários, após as construções feitas nas zonas residenciais na periferia das grandes metrópoles). Eles encontraram nessa aparelhagem uma forma de se implantar e de construir uma base organizacional para firmar seu direito de se expressar (e seu dever de cidadão). Assim que um grupo social aparece na história, muitas vezes ele o faz primeiro no domínio cultural, meio de reconhecimento, de legitimação, de constituição de uma identidade, de visibilidade dentro do espaço social. Em seguida, no campo político, nomes que são apresentados nas listas de esquerda nas eleições municipais dos anos setenta, preparando o terreno para a vitória da esquerda reformista nas eleições presidenciais de 1981.

Para completar e, de importância fundamental para entender uma das distinções essenciais entre a corrente da Educação popular e a da recreação sócio-cultural (além do fato de que a primeira é formada por militantes e a segunda por profissionais), está a influência da psicologia importada do além-Atlântico acerca das idéias de Lewin (a dinâmica dos grupos) e de Rogers (o não-dirigismo). Muitos sociólogos franceses prolongaram, através de seus próprios trabalhos, a reflexão sobre o funcionamento dos grupos (M. Lobrot, 1979) e das sociedades, sobre o questionamento em relação ao conteúdo da democracia, dentro de uma perspectiva de certa forma libertária, que não deixou de ter influência sobre diversas organizações de esquerda e extrema esquerda do ano de sessenta e oito. Ela estava notadamente na origem de uma reflexão sobre relações entre democracia política e projetos e métodos pedagógicos, que feriu as grandes federações de educação popular pouco habituadas a uma contestação interna e externa de sua autoridade.

É nesse sentido que podemos antecipar a idéia, que pode parecer paradoxal, de uma continuidade e de uma ruptura entre Educação popular e recreação sócio-cultural. Os ideais permanecem os mesmos (mais justiça social, mais compartilhamento de conhecimentos, mais democratização da cultura e menos desigualdades diante da riqueza), mas os métodos pedagógicos diferem e revelam uma grande diferença em relação à autoridade: os eventos de maio de 68, conduziram uma parte ativa da juventude estudantil, em particular, e militantes de esquerda influenciados por um pensamento do tipo anarquista, de autogestão e anti-autoritário. « Ni Dieu, ni César, ni Tribun »: essas palavras do International tomaram força nova e os comportamentos autocratas e paternalistas (do macho, do pai, do patrão, do chefinho, do consumidor predatório ao meio-ambiente) são postos em andamento, assim como as dependências que deles decorrem. A aspiração a uma mudança cultural vai exercitar uma reflexão e uma prática pedagógica levando a um aprofundamento da democracia frente às mudanças técnicas, econômicas, demográficas que afetam as relações dos homens com os objetos (no trabalho, no lazer ou habitat) e as relações entre os homens.

Os movimentos de Educação popular não escapam disso, atravessados também eles pelas exigências de mudanças sócio-técnicas, sócio-culturais e ideológicas nas relações no seio da própria organização e em suas relações com os adeptos, profissionais e, sobretudo os grupos da população aos quais são dirigidos. A recreação participou dessa procura de um novo equilíbrio em direção a uma maior cooperação, mais facilidades de intercâmbios coletivos. Ela quis ser a portadora de uma oportunidade de inovação dentro de uma sociedade que parecia para muitos uma técno-burocracia.

A recreação sócio-cultural deseja desenvolver um ideal democrático no qual existe a procura de um laço coerente entre o método e a filosofia de ação proposta : doravante, toda organização deve analisar seu funcionamento institucional, suas estruturas, sua adaptação à ação, o poder que ela exerce junto aos grupos da população com os quais ela possa elaborar um projeto e não mais apenas para os quais ela trabalha. Esse procedimento (intitulado participativo) é um fator de tomada de consciência das dificuldades de um funcionamento democrático dentro de uma sociedade global ou um território local, e ao mesmo tempo um guia para essa aprendizagem difícil da democracia, no vínculo dirigentes-dirigidos, dominantes-dominados.

Um balanço contrastado.

Os anos setenta mudaram o cenário da recreação: depois dos « trinta gloriosos », anos que depois da guerra foram aqueles de crescimento, especialmente econômico, vem a interrupção desse último, o recuo das classes médias em sua esfera privada, um vazio militante ao redor de aparelhagem que impedia seus profissionais de se tornarem gestores de serviços.  A chegada da esquerda ao poder, em 1981, depois de 25 anos de ocupação do estado pela direita, irá desmobilizar uma espécie de confiança cautelosa do movimento comunitário, do movimento sindical e do movimento social em geral. Seria preciso estar presente em 1995 para mais uma vez ver uma forte contestação do liberalismo ser expressa dentro de uma greve de quase um mês, dos ferroviários (operários e empregados das estradas de ferro) no primeiro plano.

Este período também é o de transformação da recreação sócio-cultural em simples recreação profissional: o que promove a unidade de todos os campos, práticas, técnicas, públicos, onde os recreadores intervêm, é o fato de serem profissionais de RECREAÇÃO. É assim que a convenção coletiva da recreação sócio-cultural (que rege as relações entre os empregadores e assalariados no setor privado sem fins lucrativos) tornou-se a convenção de recreação profissional após 1° de janeiro de 2000. Está claro que exemplos de campo não faltam, onde todos os parâmetros aparentemente recortados (o social, o cultural, o educativo, o político, etc.) assim o são mais por efeito de nossas representações de uma realidade complexa a simplificar, já que eles intervêm de comum acordo nas situações de recreação. Os animadores têm o habito de levar em conta o ambiente sócio-político de seu território imediato, a negociação, a mediação, o trabalho em equipe, o contexto geral da ação. Eles podem demonstrar sua capacidade de iniciativa, seu hábito do coletivo, sua poli valência de generalista, sua inteligência estratégica (de saber ler entre linhas).

Mas não seria justo omitir aqui, além da dádiva financeira da ação social do Estado que o aparelho de recreação souber utilizar amplamente, o espectro de desenvolvimento pelos mesmos de prestações de serviços cada vez mais especializados e individualizados podem tentar também os atores da recreação. Já podemos constatar no setor comercial o desenvolvimento do setor de lazer, artístico ou esportivo na direção de um « recreacionismo »  a moda anglo-saxão. Trata-se de um modelo de recreação lúdica que tendo antes abandonado os objetivos educativos e oferecendo ao público a aprendizagem de técnicas múltiplas de forma a permitir-lhes de se envolver nas atividades de viagem, turismo, ecologia, informática, vídeo-comunicação, quebra-galho, atividades corporais ou música. Os usuários são uma clientela, a das classes médias e os recreadores ficam “instrumentalizados”.

A questão do tempo livre e de seus interesses

Em francês o equivalente da noção de « recreação » ou de « recreio » não existe exceto para designar o tempo entre dois períodos de ensino na escola. Nós usamos apenas os conceitos de lazer e de tempo livre. Eu já vos falei do subsecretariado do Estado de esportes e lazer desde o governo da Frente popular, em 1936, o primeiro deste tipo do mundo. Da mesma forma, depois da vitória da esquerda em 1981, apareceu o primeiro Ministério do tempo livre (1981-1983). Depois foi o Ministério da juventude, dos esportes e da vida comunitária que se ocupa da política do tempo livre.

De um ponto de vista estritamente estatístico, todas as pesquisas demonstram a mutação real da repartição e da organização do tempo de vida nas sociedades desenvolvidas. Primeiro em valores relativos, tendo em conta o alongamento da expectativa de vida: em 1800, 45 % do tempo em que se ficava acordado era consagrado ao trabalho, em 1900, 36 %, e apenas 14 % em 1994; mas também em valores absolutos, ou seja, 11 anos do tempo acordado acumulado de trabalho, 12 e 7, nos mesmos períodos. O tempo pessoal está hoje no primeiro plano com mais de 50 % do tempo global, o tempo de trabalho não estando mais que no 4° lugar, com menos de 10 %. Daqui em diante, esse tempo pessoal sobre uma vida é cinco vezes mais longo que o tempo de trabalho e multiplicado por quatro depois do início do Século XX. De fato, na França, o tempo livre, muito mais importante que o tempo de trabalho (o último equivalendo mais ou menos a 28 horas semanais, em média, por mais de dezoito anos) é desigualmente repartido entre as classes sociais. Mas, apesar das altas de produtividade do trabalho, o desejo pelo lazer deve ser associado aquele da reapropriação de sua vida pessoal relacionada a toda sociedade que vive uma grande « desordem » segundo J. Viard, diretor de pesquisa no CNRS. Segundo ele, daqui em diante o francês médio vive 700.000 horas, das quais 67.000 de trabalho e 400.000 de tempo pessoal. Cada dia, ganhamos 3 horas de expectativa de vida suplementar e depois da « idade agrícola », mais tarde « a idade industrial », veio a « idade sem modelo », com uma profunda transformação da relação do tempo, mas também dos espaços com o gosto de « mobilidade ».

O tempo livre é um tempo social, utilizado nas atividades múltiplas e diversas, diferenciadas segundo o nível de vida e idade, nos consumos a serem colocados em paralelo com certas produções de massa, tendo as despesas progredido amplamente nos últimos 50 anos. Elas se multiplicaram por cinco entre 1960 e 1992, ou seja, uma estimativa de 17 % do orçamento global do francês, se levarmos em conta todas as despesas ocasionadas pelas férias. Os coeficientes orçamentários de lazer, cultura e espetáculos passariam de 6,22 % em 1970 a 7,43 % em 1994 e 7,7 % em 2001 segundo o INSEE (daqui em diante esse orçamento está em 5° lugar depois de alimentação, veículo, empréstimos, aluguel e representa o décimo segundo do consumo dos lares). Porém 30 % dos franceses não partem jamais em férias e essa taxa não abaixou em mais de vinte e cinco anos.

Resta dizer que esse crescimento do tempo livre permite o investimento de cada indivíduo e representa para amanhã um interesse importante da organização da sociedade: a mudança às 35 horas de trabalho semanal e a aspiração à semana de quatro dias são sinais comprobatórios. Uma vez satisfeitas as necessidades básicas (alimentação, moradia, vestuário), outras necessidades se desenvolvem (transporte, saúde, mas também cultura e lazer). Os desejos dos consumidores no caso de crescimento das receitas se exprimem de maneira idêntica ao tempo livre, de férias e lazer e, ao contrário, as restrições trazidas aos orçamentos afetam os lugares de férias e lazer, para 47,8% dos franceses em 1995, sendo o índice mais forte (depois do carro). O aumento das classes médias nos países em vias de desenvolvimento irá certamente mostrar os mesmos fenômenos de aspiração ao tempo livre e ainda mais amanhã (já cem milhões de chineses partem de férias ao estrangeiro).

Se as estatísticas dão uma percepção grosseira da realidade, a interpretação teórica do tempo livre e de lazer é mais aleatória.

Em primeiro lugar, as teorias clássicas sobre o tempo livre se opuseram aos marxistas ortodoxos para os quais o tempo livre é na maior parte das vezes um tempo privilegiado da ação coletiva (desde o partido ou sindicato até a comunidade ou a federação de educação popular), e o lazer, aquele da vida privada reparadora e recompensante do homem alienado ao trabalho capitalista ; e os liberais para os quais o tempo livre e o lazer são os momentos privilegiados de equilíbrio da personalidade, da expressão de si, do consumo, da cultura, do enriquecimento pessoal (nesse conjunto não podemos esquecer que uma tradição católica muitas vezes considerou « a ociosidade como a mãe de todos os vícios »). Para essas duas concepções ideológicas, o tempo de lazer é um tempo de socialização dos comportamentos e do crescimento pela ação educativa que eles devem induzir.

Para Joffre Dumazedier, o lazer é um tempo liberado, de acesso privilegiado à cultura e à educação, entre os tempos sociais forçados e os tempos sociais comprometidos, uma atividade  entre produção e obrigações sociais. É o lugar onde os novos valores podem ser elaborados, um questionamento de regras habituais preconizadas pelo trabalho, pela escola família, pela igreja ou pelo partido. É também uma área de conflitos de valores (entre o individualismo e o compromisso coletivo, o trabalho pelo esforço ou pelo prazer), caracterizada por quatro propriedades: liberação, desinteresse, hedonismo e individualização, e três funções: descontração, divertimento e desenvolvimento: « O lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se totalmente, ele escreve em A revolução cultural do tempo livre, seja para se repousar, seja para se divertir, seja para desenvolver sua informação ou sua formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criativa depois de se desembaraçar de suas obrigações profissionais, familiares e sociais ».

O número 210 do Caderno de Pesquisa do CREDOC (Centro de pesquisa e estudo da condição de vida) definiu o tempo livre como aquele do « vazio », fora das obrigações familiares, administrativas e de trabalho, nem tempo de preguiça, nem tempo de repouso, mas tempo não laboral e não estritamente doméstico, tempo humano, compartilhado com o trabalho comunitário, a economia familiar e as obrigações sociais: ele representa « uma imagem lúdica e recompensante em relação à pressão », uma « imagem passiva porque não é diretamente produtiva » de acordo com os critérios da economia clássica. Pelo contrário, uma concepção mais antropológica do lazer « permite representá-lo como uma dimensão social fundamentalmente e economicamente central ». É aqui que intervém a distinção entre o lazer pensado como « uma demanda que supõe o livre arbítrio individual» e o lazer visto como « um conjunto de atividades » que ocupam o tempo livre, como « uma oferta » possível.

Os sociólogos J.-L. Laville e B. Perret são, por sua vez, mais céticos sobre a utilização desse tempo liberado. Eles aceitam considerá-lo como um tempo de desabafo pessoal ou de atividades cooperativas livremente escolhidas, mas acham que também hoje o tempo de trabalho no mercado negro e as relações de submissão na economia informal, aquele do consumo ou do tempo desprovido de sentido, sem pontos de referência normativos, reforçando a tendência à anomia e à fragmentação social. Esse tempo faria mais perguntas do que podem resolver os poderes públicos na articulação entre políticas trabalhistas, do fortalecimento do vínculo social e da dinamização do espaço público.

Também existem posições mais radicais: o sociólogo R. Sue insiste no paradoxo que consiste em enfocar o discurso social na questão do trabalho e de sua economia, já que não representa mais do que uma parte cada vez mais fraca da realidade social. Para ele, é o tempo livre que cada vez mais constitui a história social atual, pois ele se beneficia de uma visibilidade social muito fraca. No fundo, ele teria uma atitude de « denegação », pois « quanto mais ele progride, menos é reconhecido» (Cf. Sua obra intitulada Tempi livre e ordem social). A crise resultaria portanto dessa defasagem entre a realidade e sua representação social. A ideologia do século XIX, que considera o trabalho como um tempo dominante, ainda pesaria muito.

O filósofo P. Viveret está bastante próximo dessa perspectiva: ela acha que se trata de uma « ilusão de ótica », o trabalho tendo sido ontem a resposta à luta pela sobrevivência, uma vez que hoje não há mais escassez (mesmo que exista uma repartição injusta). Ele propõe uma transformação cultural que faça sair da sociedade esta « lógica do trabalho » em benefício daquela de inovação e de riqueza educativa.

O lazer e o tempo escolhido (não coercivo) confrontam os humanos com uma nova interrogação sobre o sentido de sua vida e a vida da sociedade onde eles vivem. O sistema de recreação na França, historicamente apoderou-se desse setor do tempo livre e do lazer. Parece mais bem colocado compreender os interesses em torno da idéia de que o trabalho não é mais a única referência do vínculo social. Ele entende o tempo livre como um espaço público, fonte de sociabilidade, de expressão, de aquisição de identidade, de participação na vida coletiva. É exatamente aí que reside um dos seus principais fundamentos culturais, através dos quais cada um é convidado a « uma arte da existência » (como disse J. Dumazedier), qualquer que seja seu nível de renda ou de instrução.

Ao mesmo tempo, a recreação não está protegida pelas mudanças mercantis, longe das virtudes educativas: o projeto de justiça sócio-espacial do Estado - previdência se esfarela cada vez mais e o modelo americano (que encontramos em Montreal, por exemplo, em quase toda a América Latina, e também em Paris), ou seja, seus complexos de multiserviços comerciais construídos no coração dos centros de diversos bairros das grandes cidades policentradas oferecem uma imensa variedade de atividades aos consumidores : eles podem, de maneira quase que permanente, até meia-noite, e às vezes até mesmo mais tarde, alimentar-se, comprar tudo, ou quase tudo (inclusive de ambulantes), passear e badalar em família, ir ao cinema  de multisalas, exposições, a espetáculos em geral (teatro, música), ou até ver animações espontâneas, consultar a internet, escutar pregadores ou isolar-se em um lugar de oração, acessar os caixas automáticos de bancos, depois jogar nos cassinos, tudo em conexão com os meios de transporte rápidos (trem, metrô, estação rodoviária ou ferroviária, estacionamento).

Os indivíduos se deslocam (daqui em diante mais para seu lazer do que para o trabalho) e suas modalidades de sociabilidade se transformam em conseqüência. Festas e festivais, calçadões urbanos (do passeio nas avenidas de Barcelona ou ao longo da Gran Vía em Madrid, sem esquecer dos Champs Elysées, da Avenida Paulista em São Paulo, as docas renovadas de Buenos-Aires, de Londres ou de Belém, aqui entre equipamentos ultra modernos de lazer com restaurantes e museus especialmente, próximo do mercado, o tão tradicional da Praça do Relógio: por toda parte vemos e nos fazemos ver).

De fato, esses dois modelos (o da proximidade e o da andança) coexistem e se interpenetram numa articulação de ações públicas e de ofertas privadas. Agora nos resta escrever o que os profissionais da recreação podem implementar para não ficar de fora dessas evoluções. Devem eles, ou podem eles participar desse novo estilo de recreação, muitas vezes fora dos aparelhos tradicionais, nesses lugares de passagem que parecem ruas cobertas que permitem, numa nova brincadeira de labirinto, o encontro (por agora balbuciante) dos espaços consagrados à religião do mercado e do consumo com uma variedade de centros de lazer dentro de hipermercados ou lugares de venda de grandes marcas esportivas ou culturais, ou algumas vezes ao lado de lugares de oração ? E como não perceber também que esses lugares consumistas provocarão novas células de exclusão na periferia das cidades e, em seu seio, muito provavelmente a cólera desses excluídos da riqueza dentro das práticas de quebra e de saque que a televisão apresenta em abundância (o roubo em bando, especialidade que não é brasileira)? A sociedade incorre numa dualização acentuada que por sua vez provoca a implementação de dispositivos de segurança nesses lugares (revistas, vigílias, vídeo-vigilância, proteções eletrificadas) e, na periferia das cidades, uma recreação cada vez mais marcada pela imagem da reparação de indivíduos e cada vez menos pelo acesso a uma cidadania participativa que nada mais é do que objeto de discursos e rituais por parte de certos responsáveis políticos. Então tempos liberados ou nova servidão no consumo dos objetos produzidos pelas indústrias culturais, de turismo e de férias ?

Devemos confessar que « o comprometimento com a cultura não é proporcional ao tempo livre », segundo O. Donnat, sociólogo do Ministério da cultura e da comunicação. ; e à pergunta feita aos franceses « O quê vocês fariam com mais tempo livre ? », eles respondem num primeiro momento a mesma coisa mais lentamente, num segundo momento, mais frequentemente, a mesma coisa e, apenas num terceiro descobrir uma nova atividade. Essa limitação de benefícios eventuais do tempo livre é reafirmada por D. Mothé, encarregado de pesquisa no CNRS, que constata que o tempo liberado não é forçosamente uma verdadeira conquista social, pois « o lazer dos ricos modelam o ideal do conjunto da população ».

Esse questionamento é amplamente compartilhado por todos aqueles que se interessam pelo lazer. Aqui, eu penso na obra do argentino Pablo Waichman, « Tiempo libre y recreación », nos escritos do argentino Pablo Carlos Ziperovitch e naqueles do uruguaio Fabian Vilas sobre a brincadeira e a recreação, nos trabalhos de Victor Andrade de Melo e de Edmundo de Drummond Alves Junior, « Introdução ao lazer », naqueles do 6° seminário « O lazer em debate » na UFMG de Belo Horizonte em abril de 2005, na publicação revista Licere com a qual eu colaboro com honra no comitê de redação, etc.

Nessa marcha, a aposta que nos parece legítima consiste em se apoiar sobre a pesquisa da autonomia e em mais harmonia com o meio-ambiente por parte dos sujeitos, sobre as necessidades de novas formas de convívio, sobre o gosto da vitalidade, o prazer e a forma em resposta a uma vida estressante, a construção de uma identidade preocupada com o sentido da vida em sociedade frente às incertezas sociais : todas essas dinâmicas são um trampolim para a recreação de amanhã, se ela souber se agarrar a essas evoluções sociais e aos meios de comunicação que as traduzem. O sistema de recreação pode então participar da criação de um novo imaginário coletivo em uma sociedade que, paradoxalmente, às vezes privilegia de maneira marcante a procura do lucro e se inquieta tanto quanto com a falta de sentido que isso engendra.

Conclusão

A função educativa é hoje questionada por um número de evoluções e de pressões passíveis de serem observadas: Hoje mais do que no passado, a lei é mais submissa à opinião pública, à mudança de atitudes, ao indivíduo contemporâneo ávido por sua autonomia, ao mercado que desestabiliza os equilíbrios e às instituições, em seus valores educativos e práticas que deles derivam.

Ao mesmo tempo há uma dúvida da sociedade sobre ela própria, sobre seu futuro. Minha opinião é que é impossível transmitir uma mensagem, uma idéia, uma reflexão, uma análise, sem uma forte convicção. Não há tampouco convicção forte sem imaginação para amanhã e utopias para reinventar.

A recreação contribui para a produção da sociedade, solicitando os indivíduos, mobilizando seus sentimentos, seus desejos, apostando neles, pedindo-lhes que façam existir a sociedade pelo seu desejo de provar sua utilidade quando esta não vai mais por si e quando não sabemos mais que forma lhe dar. Filosoficamente, é definitivamente a única razão de ser. A exemplo de P. BOURDIEU, pode-se dizer que o projeto de recreação permite “fundar uma utopia realista, tão distante do voluntarismo irresponsável quanto da resignação à ordem estabelecida” (P. BOURDIEU, 1996).

A recreação, ao longo do tempo livre, é um lugar de experimentação cultural, tanto que é colocada no coração das contingências da história real e das necessidades da conjuntura O recreador se torna um homem de ação, um estrategista, um homem da praxis, sem ilusão sobre o mundo, portanto lúcido, mas perseverante na esperança

 

Bibliografia

 

- Augustin, J.-P. e Gillet, J.-C., L’animation professionnelle. Histoire, acteurs, enjeux, ed. l’Harmattan, coll. Débats-jeunesse, 2000.

- Authier, M. et Hess R., L’analyse institutionnelle, PUF, coll. Que sais-je ? 1981.

- Bolle de Bal, M., Reliance et théories, ed. l’Harmattan, 1996.

- Bourdieu P., « Sciences sociales et démocratie », Nouveau Manuel. Sciences économiques et sociales, Combemale P. et Piriou J.-P. (sob a direção de ), La Découverte, 1996.

- Castoriadis, C., Les carrefours du labyrinthe-III, ed. du Seuil, 1990.

- CEMEA, Les temps libérés, Atos de jornadas de estudos organizadas pelos CEMEA em 25, 26 e 27 de novembro de 2005. CDROM. (On de po se encontrar especialmente três intervenções, a de O. Donnat « Temps libérés, temps de culture ? », a de D. Mothé « Le temps libéré est-il une conquête sociale ? » e a de J. Viard « Temps libérés, inégalités multipliées ? »)

- CREDOC, Caderno de Pesquisa, n° 46,  1993 ; n° 71, 1995 ; n° 210, 2004.

- Crozier, M, L’acteur et le système. Paris: Seuil, 1981.

-Donnat O., Regards croisés sur les politiques culturelles, ed. la Documentation française, 2003.

- Dumazedier, J., La révolution culturelle du temps libre. 1968-1988. Paris : Méridien, Klincksiek, coll. Société, 1988.

- Dumazedier, J. et Samuel, M., Société éducative et pouvoir culturel. Paris : Seuil, col. sociologia, 1976.

- Durkheim, E., Education et sociologie. Paris : PUF, 1966.

- Gillet, J.-C., Animation et animateurs. Le sens de l’action. Paris : l’Harmattan, col. Tecnologia da ação social, 1995.

- Gillet, J.-C. (sous la dir. de). Les associations, des espaces entre utopie et pragmatisme. Bordeaux : Imprensas Universitárias de Bordeaux, col. Le territoire et ses acteurs, 2001.

- Gillet J.-C. (sous la dir. de), L’animation professionnelle et volontaire dans 20 pays (2 volumes), ed. l’Harmattan, col. Animation et territoires, 2004.

- Gillet J.-C. (sob a dir. de), L’animation dans tous ses états (ou presque), ed. l’Harmattan, coll. Animation et territoires, 2005.

- Guillaume, M. (sob l dir. de), L’état de la France 96-97 (em colaboração com o CREDOC), La Découverte, 1996.

- Huet A. e Saez G., Le règne des loisirs, ed. de l’Aube, 2002.

- Lanfant, M.-F., Les théories du loisir, col. O sociólogo, PUF, 1972.

- J.-L. Laville e B. Perret, « Vers une société de pluriactivité », Esprit, n° 12, dezembro de 1995.

- Léger J., « Les dépenses pour les loisirs depuis 1960 », INSEE Première, n° 306, 1994.

- Mermet, G., Francoscopie 1997, Larousse-Bordas, 1996.

- D. Mothé, L’utopie du temps libre, ed. Esprit, 1997.

- Viard J., Le sacre du temps libre, la société des 35 heures, ed. de l’Aube, 2002.

- Viveret P. « Entretien », PEPS, n° 51, julho-setembro de 1995.

- Yonnet P., Travail, loisir : temps libre et lien social, ed. Gallimard, 1999.

 

courrier  : jeanclaudegillet@free.fr / Web : http://jeanclaudegillet.free.fr / http://colloque.cs.free.fr
Accueil ] Remonter ] SARAGOSSE - octobre 2011 - Introduction ] SARAGOSSE - Octobre 2011 - Conclusion ] BARCELONE - 11 mars 2011 ] BEJAR-PLASENCIA - octobre 2008 ] PORTUGAL - Avril 2007 ] RECIFE - Novembre 2007 ] PORTUGAL - 28-29 mars 2007 ] SALAMANQUE - 19-20-21 Octobre 2006 ] [ RIO -Juin 2006 ] CHAVES - Avril 2006 ] SAO PAULO - Sept 2005 ] MONTEVIDEO - mai 2005 ] MADRID - mars 2004 ] MEDELLIN - juillet 2003 ] GIJON - novembre 2002 ] LES RELATIONS DIFFICILES... ] L'ANIMATION SOCIOCULTURELLE ] QUELLE THEORIE POUR L'ANIMATION ] L'ORIENTATION DE LA RECHERCHE ] LA DEMARCHE PRAXEOLOGIQUE ]
Conception du site (c) 2002-2011  jeanpierre.descamps@amitel-communication.fr & dd / association AMITEL [communication évènementielle - formation - animation - conception - création - multimédia NTIC]
cliquez sur ce lien pour écrire au webmaster