PORTUGAL - Avril 2007

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Ponte de Lima
(Portugal)

Animação e Terapia
Não confundir estas duas lógicas de acção.
PORTUGAL - Avril 2007
Jean Claude Gillet
Universidade de Bordéus

1). Coloquemos a problemática.

 A noção de "social" agrupa, na tradição sociológica, tudo o que se refere à sociedade, incluindo a económica, a política, a cultural, etc. É uma das razões que fazem com que E. Durkheim não ponha em causa a noção de cultura, como foi o caso mais tarde, no século XX, dos antropólogos e dos etnólogos.

Em contrapartida, no âmbito da acção governamental francesa, é posta em causa a política social que compreende a saúde, a educação, o alojamento e dispositivos que podem dirigir-se a categorias específicas (família, deficientes, beneficiários de rendimentos sociais, etc.), cujo J. Donzelot, na invenção do social, analisou as condições de aparição no fim do século XIX: os republicanos moderados, preocupados em evitar tanto o regresso da reacção ao poder como a sua conquista pelo proletariado influenciado pelas ideias socializantes e revolucionárias promoveram o solidarismo, visando assegurar uma segurança “social a cada um dos membros da sociedade e uma redistribuição parcial dos rendimentos permitindo lutar contra as desigualdades demasiado flagrantes.

Após a segunda guerra mundial nasceu o Ministério dos Assuntos Sociais, encarregue especificamente de colocar em prática as seguintes políticas: prevenção, acção social, segurança social e seguros sociais. Estas políticas alteraram, também, de título ao mesmo tempo que o Ministério da Tutela (do Ministério da Solidariedade em 1981 ao Ministério da Coesão Social, do Alojamento e da Solidariedade em 2005), sem que os princípios que os constituem sejam fundamentalmente alterados.

É no âmbito deste Ministério que estão previstos, formados e repartidos os numerosos trabalhadores sociais[1]. Estes, quer sejam assistentes de serviço social ou educadores especializados, conselheiros em economia social e familiar ou ajudantes médico-psicológicos[2], estão ao dispor das populações, frequentemente missionados por instituições ou associações dependentes administrativa e financeiramente deste Ministério[3]

Cada vez mais os animadores fazem parte dos agentes de união com este ministério (como por exemplo no âmbito da linha hospitalar, mas não só), a questão que podemos colocar hoje, a propósito da sua união administrativa é a seguinte: não corre o risco gradual de ser aspirado numa cultura profissional que não é a sua e, pelo contrário, pode provocar efeitos ruidosos mais importantes ainda hoje sobre as missões que deveriam ser as suas?

É difícil definir a noção de cultura como profissão, constituindo a sua identidade e exprimindo-se pela solidariedade que existe entre os membros do grupo que a compõem: é necessário recordar, honestamente, que não há nenhum acordo dos sociólogos sobre uma definição irrefutável e definitiva do que é uma profissão. Retomando parcialmente os modelos desempenhados por T. Parsons, podemos dizer que a animação como todo o subsistema social está em referência nomeadamente num conjunto de normas e valores (favorecendo uma regulação social em união com valores democráticos de igualdade dos direitos à cultura para todos, por exemplo). Com E. Hugues podemos considerar que todos "os grupos profissionais procuram, escrevem, Cl. Dubar e P. Tripied, e fazem-se reconhecer pelos seus parceiros desenvolvendo retóricas profissionais e procurando protecções legais." Alguns melhores que outros, graças à sua posição na divisão social de trabalho e à sua capacidade de coligação. Mas todos aspiram por obter um status protector "[4]. Além disso R. Sainsaulieu orientou as suas investigações sobre a noção de cultura evocando mais alto, colocando acento sobre as diferenças culturais entre grupos profissionais a partir das situações concretas de trabalho destas diferentes categorias, a constituição dos grupos através da sua identidade e as diferenças de comportamentos que as estruturam nos seus modos de expressão e de organização.

Queremos mostrar que a evolução de certos animadores que agem no campo sanitário, social ou médico-social conduzem-nos gradualmente a inscrever-se e a definir-se como trabalhador social da reparação dos indivíduos com uma centralização na falta de insuficiência como estigmas, nas deficiências e desvantagens que estruturam as nomenclaturas, tabelas e classificações por exemplo da deficiência, e também não fundam a sua identidade profissional na promoção destes mesmos indivíduos centrada nas capacidades, nas potencialidades e na restauração da sua imagem numa interacção contínua com o ambiente: porque, como explica a psicossocióloga E. Enriquez, "é apenas outro que pode reconhecer o ser humano como portador de desejos e que pode assegurar o seu lugar na simbologia social". Cada vez mais os estudantes animadores que desejam dirigir-se para públicos com deficiência (físico ou mental), com inadaptação social, inserção, prevenção ou lares de idosos, sob a pressão da cultura histórica destas instituições e dos agentes que os constituem perdendo gradualmente os seus marcadores profissionais extraviando-se em práticas que revelam mais do trabalho social[5] clássico, que do trabalho da sociedade sobre ela própria, definido como o facto de se apoiar nos actores sociais, indivíduos e grupos, participando na emergência de novas formas de acção e no alargamento dos espaços de democracia. Fr. Tétard, historiadora, investigadora no CNRS, parece compartilhar este ponto de vista quando diz, constatando que o número de animadores se parece mais ou menos "em fase" com os trabalhadores sociais: "não tenho a certeza de que as filosofias que constituem estas diferentes profissões sejam exactamente as mesmas"[6].

 Se se tratar de pôr em prática os projectos ditos de "animação social"[7] no sentido utilizado pelos italianos ou os espanhóis (ou na América Latina, tal "el desarrollo comunitario": dito também em certos países anglo-saxões "the comunity development"[8]; ou ainda "developpement communitaire " no Quebeque), então as analogias de prática e mesmo de orientação teórica são possíveis. Esta constatação é uma evidência se definirmos o desenvolvimento comunitário como a integração de grupos excluídos ou marginalizados numa troca e um debate entre cidadãos alargado baseando-se nas capacidades sociais e culturais de cada uma das comunidades em causa (ciganos do bairro Saint-Jacques em Perpignan nos arredores do Guiana passando por Sans Domicile Fixe [SDF] que habitam algumas das nossas ruas ou os nossos locais públicos: esta lista é somente indicativa). Mas, de maneira geral, em direcção a todos os públicos, animação social e perspectiva comunitária são consanguíneas porque as duas são fundadas sobre a afirmação de que os problemas sociais são de natureza colectiva e devem por conseguinte ser objecto de soluções colectivas.

Consequentemente os animadores ditos "sociais" podem afirmar a sua identidade profissional numa abordagem comunitária que procura exceder os únicos interesses individuais baseando-se no sentimento de pertença compartilhado a nível territorial ou institucional, sobre os interesses que unem os actores em causa (os utilizadores de serviços por exemplo, ou as populações, mas em diálogo - se isso for possível - com os eleitos e os representantes das instituições) e sobre a ideia participativa da comunidade de base no debate público e a resolução das “situações-problema" aos quais são confrontados. No seu dicionário do trabalho social[9], o argentino E. Ander Egg associa como equivalentes "animación de base" (animação de base) e "desarrollo comunitario" (desenvolvimento comunitário). Além disso, indica que "a acção comunitária articula-se com o desenvolvimento local, visando sensibilizar e motivar as pessoas de modo a que participem na solução dos seus próprios problemas". Este método (a participação), este programa de acção (fundado sobre projectos), este processo (com a estratégia que implica), este movimento (da ordem da acção social) entra em correspondência e sinergia com a cultura da animação.

 Mas em França (e noutros lugares?), os animadores fazem realmente parte no entender de todos (ministérios dos assuntos sociais e investigadores patentes neste sector) da comunidade profissional dos trabalhadores sociais? Nada é certo, dado que tudo depende da definição de trabalho social (acento posto sobre a reparação ou esforço levado para a promoção? Abordagem de tipo individual ou solicitação colectiva? etc.) E quando os animadores se inserem nos sectores de cuidado e terapia, com alguns riscos de confusões, ruídos, ou mesmo pela perda de identidade profissional, são confrontados? 

2). Funções e papéis dos profissionais em causa.  

No sector da investigação ligado ao Ministério dos Assuntos Sociais, os animadores são frequentemente esquecidos ou ignorados por muitos sociólogos: é assim que em Trocas Saúde-Social, revista trimestral do Ministério do Emprego e da Solidariedade publicada na documentação francesa, o processo intitulado "as profissões sociais – alterações e permanências" (nº 87 de Setembro de 1997), os dois sociólogos de referência, de J.-N. Chopart (então encarregados da missão à MIRA, Missão Interministerial de Investigação e de Avaliação) de um lado nas “alterações do trabalho social, pontos de vista de investigação" e o M. Chauvière (director de investigação no CNRS) do outro "para uma apresentação histórica das profissões sociais" não faz menção nem um, nem outro, aos animadores ou à animação.

No Jornal da Animação, um animador profissional detentor de um diploma de animação do Ministério da Juventude, dos Desportos e da Vida Associativa (mas originalmente auxiliar médico, o que permite talvez compreender pela sua postura de profissional anterior as contradições que o atravessam), fala do seu "trabalho médico"[10]: "eu envolvi-me muito com o pessoal que trato." Sou ligeiramente uma correia de transmissão ". Ao mesmo tempo, é de reconhecer que parece evoluir para uma definição de função ligeiramente diferente: "debato-me de modo a que ninguém não fale da sua patologia". E orienta o seu trabalho de animador num centro de convalescença abrindo-o ao exterior, com as associações locais, de forma a permitir o estabelecimento de novas relações sociais para os pacientes que tenham deixado o centro. O trabalho a realizar com o pessoal que trata é certamente indispensável, mas é necessário recordar que os animadores não têm nenhum cuidado a realizar?

Na mesma revista (mas no n°38), um outro animador em hospitais geriátricos[11], B. Hervy fala da sua acção insistindo no facto que se a capacidade "de autodeterminação" for reduzida para certos pacientes, é necessário, contudo, ter em conta "o parecer das pessoas". Pensa também que neste sector vimos "tudo e também não importa o quê, como animadores responsáveis essencialmente pela limpeza e ajuda nas refeições". Percebe precisamente que é necessário sair da relação que cuida/cuidado: "o animador não está na tarefa da reeducação, deve estar no prazer de viver" e "é necessário interrogar-se sobre a diferença entre participar e fazer." É necessário repor em prática actividade por actividade ". É necessário acrescentar aqui que o perigo desta conduta de tipo consomatória refere todas as actividades de lazer e artísticas que um animador pode organizar. Se recordarmos que a noção de arte significa em latim "habilidade adquirida pelo estudo ou pela prática", então muitas práticas de animação são referidas neste sentido: artes plásticas, expressão escrita e oral (como o conto por exemplo), canto, dança, desporto, vídeo, foto e multimédia em geral, jardinagem, etc. 

3). A animação nos estabelecimentos para pessoas idosas.  

Na França o projecto de vida unido a cada instituição, doravante tornado uma obrigação legal, é o quadro[12] que pode permitir um melhor reconhecimento do lugar dos animadores profissionais sabendo ao mesmo tempo os limites das pessoas neste tipo de instituição onde 80% estão sentados e são nonagenários. Uma animação assim, só é realmente possível em que condições?

Com pessoas atingidas pela doença de Alzheimer, é certamente necessário que o animador que trabalha junto de pessoas dementes tenha uma formação mínima (que pode fazer-se pela experiência e pelo acompanhamento) sobre "as perturbações cognitivas destes"[13], como explica uma estudante do IUT na sua dissertação, mas é necessário considerar como fez o médico deste estabelecimento que o animador deve "integrar-se à equipa que trata"? O animador trabalha em cooperação, em relação, e em concertação com os que trata, certamente. Mas a sua lógica profissional aumenta de uma outra natureza e como a estudante explica: "a animação é uma competência específica!... Esta especificidade leva a trabalhar sozinho, mas em complementaridade com a equipa que trata" propondo por exemplo os momentos divertidos que estreitam as relações com membros da família, restaurando a sua dignidade (por actividades físicas, manuais ou de estimulação cognitiva como o canto), em resumo criar momentos de prazer, recusando a "denegação da cidadania dos residentes", como explica um psicólogo num artigo revelador das Actualidades Sociais Hebdomadário (ASH) intitulado "ousar promover a liberdade do ir e vir dos utentes"[14] dos estabelecimentos sanitários e médico-sociais. Frequentemente as instituições têm tendência a fazer de acordo com os seus hábitos de funcionamento: "esta ordem pré-estabelecida é por vezes excluída de certas maneiras de fazer que incomodam"[15], como explica o professor o M. Personne, da universidade de Tours e de Toulouse, investigador no laboratório "psicodinâmico da doença de Alzheimer" em Lião II valorizando "a espontaneidade criadora, a actividade livre" contra a passividade. Tem de se fazer uma distinção entre o viver em tratamento (la cura como se diz em Itália) e a necessidade de fazer um tratamento, procurando uma maior autonomia para a criação de um fórum regular dentro de um lar de idosos, ou de um grupo de idosos para colocar em prática as suas capacidades colectivas de empreendedorismo sobre as questões que lhe dizem respeito e ao Grupo.

Além disso, como explica outro artigo dos ASH, "uma espécie de incerteza cerca ainda esta disciplina [a animação] que não se pode limitar a uma sucessão de actividades ocupacionais, mas deve visar, a partir das necessidades próprias de cada pessoa idosa, no cumprimento próprio e a participação na vida social"[16] para favorecer a sua integração e a sua participação na vida colectiva institucional nomeadamente. 

Recordem a este respeito que as assistentes sociais, os educadores e os animadores fazem parte das "profissões intermédias" de acordo com os critérios do INSEE francês (Instituto Nacional das Estatísticas e Estudos Económicos) todos agindo com os públicos em situações que são imergidas de desafios políticos e institucionais, estratégicos e pedagógicos (é necessário recordar que não há maior política que a pedagogia na medida em que é um elemento analisador do sistema social que implica e revela a todo observador atento?). Na medida em que (incluindo os lares de idosos por exemplo) a questão central de onde vão decorrer todos os outros é a do lugar destes mesmos públicos nas instituições que os acolhem (da infância à pessoa idosa), da sua influência no processo das decisões que a eles se referem, resumidamente da sua capacidade de exercer o poder, quer como actores-cidadãos, quer às vezes também como clientes: podemos compreender então a necessidade para os animadores de obter uma formação qualificante de elevado nível justificada amplamente pela complexidade das situações institucionais mais favoráveis a limitar a acção do animador ao ocupacional, ou mesmo vigilante. A eficácia do profissional à resistência da mudança nas instituições é a este preço. 

4). Quem está do lado da preocupação?  

A questão é idêntica: estamos na presença de reais actividades de animação quando se trata por exemplo, de centros de férias que acolhem crianças doentes com um animador para quatro crianças apenas, quartos com crianças medicamentados e a tomada de medicamentos assumida pelos animadores aquando das saídas se for o caso (cf. das cores para o hospital, em Anim' Magazine, a revista do UFCV, Junho de 2003, n°109/110)?

A relação entre animação e terapia nem sempre é claramente definida: se por exemplo o psiquiatra bordelais J. Broustra faz muito claramente a distinção entre:

- o animador, que gere um atelier de trabalho em madeira com doentes de um hospital psiquiátrico, ou uma situação que permite a aprendizagem dos instrumentos, os gestos  favorecem a partir daí a criatividade das pessoas,

- o enfermeiro, que vai interpretar o facto do paciente eliminar os obstáculos de madeira para ir "a direito" ou pelo contrário adapta a sua criação à natureza do objecto e à sua forma.

 No entanto desenvolve também a ideia do "animador terapeuta", ou seja de um profissional que, com uma formação complementar de tipo psicoterapêutica sobre a técnica posta em causa (escrita, teatro, dança, artes plásticas, cozinha, circo, etc.), anima um atelier de expressão e trabalha também, não sobre a única função de animação permitindo a única expressão criadora mas também sobre uma posição psicoterapêutica.[17]

 É assim que uma antiga estudante de animação tem seguido uma formação em psicanálise bem como cura psicanalítica, seguida de uma formação em terapia familiar e uma formação artística que trabalha com o Dr. Broustra há muito tempo, auto-intitula-se "animadora terapeuta". Outra estudante, na mesma instituição, fala-nos dos seus tempos de regulação (de supervisão) com a psicóloga que lhe permite "poder avaliar o seu trabalho, os progressos ou as regressões dos pacientes". Totalmente privada sobre um terreno onde não domina as regras do jogo, pode apenas aceitar a sua dominação, incorporá-la, numa perda de autonomia da sua função e da sua identidade profissional. É assimilada a um sistema que a devora: "a animadora tem uma pequena função de cuidar" (ainda que além disso, noutros momentos do seu trabalho escrito, esta profissional reencontra os acentos de uma "conduta participativa").

 "O trabalho da animadora inscreve-se num projecto de cuidados definido pela equipa que cuida" enquanto que os enfermeiros têm ao mesmo tempo uma função de animação.

Em todos estes casos não vemos muito bem a diferença entre um animador e um membro do pessoal que cuida, que teria adquirido uma formação com uma técnica de animação. Certamente, vê-lo-emos também nas relações entre educador especializado e animador, sendo as fronteiras às vezes leves em ofícios, podemos perceber como são relativamente próximas, independentemente de se tratar de profissões diferentes, com formação diferente e de culturas diferentes como nós dizemos. É por isso declarado que um animador pode ter efeitos terapêuticos não significando, no entanto, que se aparente ao sector dos cuidados, excepto se entendermos no sentido geral de um estado de bem-estar sobre todos os planos que se referem à vida de qualquer um, todos os dias da sua vida incluindo fora dos momentos de inclusão em instituições sanitárias.

 Do mesmo modo, se o objectivo é, numa animação de atelier de escrita, "de reparar, de ajudar e de tratar", podemos ainda falar "de criação, de poesia, e de literatura", interroga-se O. Toulet-Castera, militante da Associação Francesa para a Educação Nova (GFEN)? e acrescenta: "que o animador de atelier inscreve-se no cuidado ou na reparação e esta escolha invade o lugar do aparecimento inventor... É na posição de animador (a) de atelier de criação ou de poesia, que podemos fazer, criar, escrever;..., nada mais que o desejo irrepreensível de escrever... escrevemos em ateliers de escritura e reparamos, ajudamos, cuidamos em lugares com finalidade terapêutica"[18]. Não se deve confundir a animação, favorecendo a criatividade e a reparação ou normalização social.

O Professor P. Santonastaso, chefe do departamento das neurociências da Universidade de Padoue, durante um colóquio sobre a animação em Outubro de 2005, fez uma comunicação sobre o significado da animação neste sector: para ele, a animação, no sector psiquiátrico, revela uma "reabilitação físico-social" que pode operar-se por um lado por um trabalho de criação numa actividade motora controlada para os que estão na hiperactividade e compulsividade, favorecendo assim uma melhoria da sua relação com o corpo, e por outro lado um trabalho sobre a aceitação e uma nova percepção de si num trabalho sobre o imaginário e as linguagens. Mas em caso algum, aos seus olhos, não pode haver confusão entre sector da terapêutica e sector da animação. Do mesmo modo, a um outro nível, mas no mesmo sentido, "a animação não tem...um papel terapêutico", declara A. Michaux, no seu memorando de fim de formação no IUT (hospital das crianças investi pelo animador sociocultural), mas antes de favorecer a relação entre crianças doentes, pessoal que cuida e famílias.

 

De resto no site do Ministério da Saúde, figuram pela função pública hospitalar, cinco domínios funcionais (entre os quais os cuidados, os sociais, os educativos, os psicológicos, etc.). Uma destas famílias que constitui a função social é a "dos ofícios da educação técnica e a animação", com "o animador sociocultural" (encarregado de "desenvolver, organizar e conduzir projectos que visam o desenvolvimento, a socialização e a autonomia das pessoas"). Em caso algum, nos hospitais e oficialmente, a animação faz parte do sector de cuidados.

A confusão é mais perceptível na acção deste animador que, junto de pessoas idosas dependentes, põe em prática actividades que lhes permitam viver melhor no domicílio. Organiza animação regular num serviço de cuidados de enfermagem ao domicílio, de tipo associativo: "Não somos somente pelo lazer, precisa o seu director. As nossas animações têm também vocação para ser acções de reeducação... nomeadamente para as pessoas desorientadas "[19]. Ainda a fragilidade da sua função é perceptível dado que parece participar num atelier "terapêutica de mediação" propondo actividades motoras e intelectuais adaptadas a um público que apresenta perturbações de tipo Alzheimer. Tal como outro estagiário em formação contínua de animação fala do seu "papel terapêutico" no hospital, da organização de "saídas terapêuticas", de "mediação terapêutica no âmbito de uma criação terapêutica" no seu trabalho escrito sobre a análise da sua função[20]. Ateliers de artes plásticas, de expressão corporal ou de teatro são co-animados pelos médicos, enfermeiros ou fisioterapeutas. A animadora não fala apenas da noção de "pacientes" para designar os públicos que são os seus. No jornal da animação (n° 32, Outubro de 2002), P. Lecarme a propósito dos animadores em meio hospitalar conforta esta posição considerando que a animação faz parte do "tratamento". Integrar-se numa equipa como qualquer outro profissional, certamente. Desejar a cura de um paciente e a sua partida, é uma evidência. Longe de nós a ideia de ignorar as boas intenções que presidem a estas inovações, é necessário que nesta mistura de cuidados, de educação, de reeducação ou de animação, a identidade de cada um dos profissionais reforça-se em detrimento de uma multiprofissionalidade que não tem sentido. 

5). Conclusão.  

Finalmente, a animação comporta três dimensões essenciais, como explicava um profissional no centro de alojamento para deficientes mentais adultos, B. C. (a sua posição pessoal e profissional proíbe-me de dar outros elementos de identidade que as suas iniciais):

 - "restabelecer a relação do sujeito a ele mesmo, oferecendo a cada um a possibilidade de se desenvolver e de construir uma imagem mais valorizada de si..." apoiando-se nos seus recursos potenciais;

 - visar... no estabelecimento uma relação comunitária interna ou com outros parceiros no exterior, o que permitiria a cada um sentir-se parte permanente de um sistema de pertença, apoio essencial à identidade adulta;

- por último, tentar fazer emergir a relação societária que permita fazer-se reconhecer como cidadão, esta última dimensão é a mais delicada a trabalhar, devido ao estatuto muito específico destes adultos "[21].

 

Este animador procurava por conseguinte pelas suas intervenções e os diversos ateliers culturais e artísticos, realizados para privilegiar os objectivos que visam a aquisição e o desenvolvimento de competências físico-sociais, como comunicar com diversos grupos dentro e fora do estabelecimento, alegar o seu ponto de vista respeitando o dos outros, desenvolver redes de afinidade ou de apoio, aprender a negociar, a fazer escolhas, participar na elaboração de decisões e de regras de funcionamento, criar uma associação, etc. Explica ao mesmo tempo (e quantas vezes não entendi o considerar de experiências similares) que, além do pouco interesse manifestado por vezes pela equipa, os obstáculos, pressões e reservas, a colocação em prática da função de animador por parte de certos actores (mas não todos) da instituição foram regulados: retenção de informações, atitudes defensivas, interferência de actividades por outros encontros intempestivos, recusas de ter em conta as mudanças observadas em certos adultos no seguimento das actividades de animação, argumento permanente da incapacidade dos residentes a participar nesta ou naquela acção, declinada imediatamente sobre o modo da ilusão animadora. É necessário dizer que o comportamento de uma assembleia geral dos residentes e a posta em prática de uma comissão de residentes introduziram certa "desordem" na vida institucional, como elementos estruturantes de uma análise e do estado da instituição própria e o comportamento de todos os profissionais que conduzem (do cuidado à animação, passando pelo educativo, do mais ato ao mais baixo hierarquicamente).

 Uma certa independência manifesta-se em relação às regras e normas institucionais estabelecidas, nem sempre muito legítimas, para a construção de um outro sistema de regulação de trocas, não será este por uma reconsideração do regulamento interno, o compromisso de cada um numa abordagem da responsabilização individual e colectiva e uma relativa transformação das relações sociais pela aprendizagem do funcionamento democrático, permitindo passar de uma situação de individualismo arrebatado a uma individualidade singular numa fase de entreajuda mútua.

 Vários ateliers serviam por conseguinte de apoio a esta aprendizagem da solidariedade (percussão, coro, madeiras, informática). O profissional em causa recorda na sua memória que as mudanças perceptíveis também no olhar sobre si mesmo ou sobre os outros continuam a ser modestas e conflituosas, não será por este único facto que, sem a presença do animador, a questão continuaria posta na dinâmica constatada e num conformismo muito largamente dominante perdura ainda nos comportamentos de uns (residentes) e de outros (profissionais): isto é particularmente visível aquando das reuniões de síntese que minimizam os efeitos produzidos, ou mesmo ignoram-nos, sob o efeito "de uma proibição – interiorizada, mas não diz explicitamente – de pensar ou agir diferentemente" (id). De uma certa maneira, trata-se de confiná-lo à dissidência para melhor negar as suas práticas e apoios teóricos das quais são expressos por um agir com intenção e não simples actividade de tipo consomatória ou passatempo ocupacional. Colocamo-lo assim numa espécie de afastamento. Do mesmo modo, a afirmação permanente pela direcção que cada profissional deve ser polivalente e que cada um pode ser animador como pode ser vigia de noite é uma maneira de não reconhecer a animação na sua especificidade e de desvalorizar a existência de profissionais da animação, considerados assim supérfluos. Frequentemente vem-me ao ouvido este tipo de discurso em instituições de cuidados, lares de idosos ou estabelecimentos de infância inadaptada evitando assim a confrontação directa com a animação e a cultura que representa fonte do desconhecido, de apreensão, ou mesmo de insegurança, por simples ignorância.

 

Certamente um atelier terapêutico pode utilizar a função de animação na sua dinâmica em termos de interacções produzidas como define a psicossociologia em geral, mas um atelier de animação posto em prática por um animador, com os mesmos públicos, tem outros objectivos: não é nem ao paciente, nem ao cliente que ele se dirige em primeiro lugar, não é à lógica dos meios de cuidados no campo da psiquiatria ou da psicanálise, mas à lógica sociológica e política do indivíduo cujos direitos de cidadania são frequentemente injuriados pelas instituições e instalações sanitárias, sociais e médico-sociais ou à lógica cultural e artística que desenvolve a criatividade e estimula o imaginário individual e social. Isto pode ser modestamente o caso mesmo num serviço pediátrico, onde como explica esta antiga estudante, "os animadores investem nas salas, nos corredores e nos quartos... e demonstram criatividade... É importante que as crianças tenham espaços para se reencontrarem e compartilhar momentos em comum"[22]. É assim que pode começar a afirmação dos seus direitos, favorecendo "as trocas, os encontros entre todos os indivíduos propondo actividades sociais e culturais" saindo assim "do modo relacional que cuida/cuidado" permitindo-lhes agir e não apenas sofrer. "A criança recupera então a sua posição de posse onde é livre de agir minimamente autónoma." Reencontra a sua identidade e pode apropriar-se do espaço..."[23] numa construção social onde cada um, pela sua patologia específica, toma consciência no contacto com os outros que não é o único a viver uma situação difícil e dolorosa.

 A função de animação é por conseguinte estruturante para a própria instituição porque propõe a colocação em cena de conflitos de valor, e não só um conflito entre corporações profissionais: é acção e reflexão, espontaneidade e organização, permitindo a confrontação consciente entre tradição e inovação, resumidamente um praxis onde o grupo é um quadro comunitário de múltiplos actos individuais, tentando diminuir os processos de reificação inerentes às instituições[24].


 

[1]              Nous conservons l’appellation de travail social plutôt que celle d’intervention sociale pour désigner l’action des professionnels du secteur : cela semble une « tautologie » comme l’exprime le récent rapport de l’IGAS (Inspection Générale de l’Action Sociale) pour 2005 : les vingt cinq premières pages du rapport présentent les différentes acceptions des termes de travail social et d’intervention sociale pour préférer en définitive ce dernier, plus représentatif aujourd’hui, au yeux du ministère des affaires sociales, des multiples acteurs qui interviennent dans le champ de l’action sociale. Il n’est pas possible de s’y rallier car cette intervention sociale vise des « personnes en difficultés sociales » (p. 15, p. 25) ou touchées par « la précarité » (p. 20) et concerne tant les bénévoles que les professionnels. Une telle définition est à l’opposé des objectifs de l’animation consistant à s’adresser à tous les publics et nos travaux concernent essentiellement les professionnels de l’animation. Par ailleurs, le même rapport, dans un autre passage, avoue qu’intervention sociale et travail social sont deux concepts utilisés indifféremment : voilà qui clarifie le débat !

[2]              Pour ne citer que les plus connues ou les plus importantes en nombre.

[3]              Le Conseil économique et social français distingue quatre familles professionnelles : celles éducatives, celles de l’aide, celles chargées de l’animation et les assistantes maternelles. Avis du CES des 6 et 7 juillet 2004.

[4]              Cl. Dubar et P. Tripied, Sociologie des professions, coll. U, éd. Armand Colin, 2003.

[5]              Sur l’évolution du travail social on peut consulter le numéro 890 de la revue Problèmes politiques et sociaux, La documentation française, Juillet 2003.

[6]              Fr. Tétard, De l’affaire Dreyfus à la guerre d’Algérie, un siècle d’éducation populaire. Entretien avec Fr. Tétard, Revue Esprit, mars-avril 2002, n° 3-4.

[7]              Une option du DUT Carrières sociales n’est-elle pas intitulée « animation sociale et socioculturelle » depuis une dizaine d’années, en lien en particulier avec l’accroissement des inégalités dans la société et avec la politique de la ville qui fut conçue à l’origine comme un élément de lutte contre les ségrégations et les discriminations sociales et spatiales.

[8]              Signalons que la troisième Biennale internationale sur l’animation qui se tiendra à Lucerne en 2007 aura justement comme thème central de réflexion les rapports entre « Animation et comunity development ».

[9]              Ed. Lumen, Buenos Aires, 1996. 

[10]             Itinéraire d’un animateur, par P. Lecarme, Journal de l’animation, septembre 2003, n° 41.

[11]             B. Hervy, créateur du groupe des animateurs en gérontologie, gériatrie, structures et services pour personnes âgées. Il lui a été confié en 2003 par le secrétariat d’état aux personnes âgées une mission de réflexion sur l’accompagnement social et socioculturel de ce public. Il participe aussi à l’idée de la création d’un brevet professionnel « personnes âgées ». 

[12]             La loi du 2 janvier 2002 rénovant l’action sociale et médico-sociale est un instrument sur lequel les animateurs peuvent s’appuyer pour mettre au centre de l’institution le sujet désirant et agissant, puisque le projet institutionnel de vie est désormais obligatoire.

[13]             A. Boullette, Comment l’animateur socioculturel peut-il s’inscrire dans la prise en charge des personnes atteintes de la maladie d’Alzheimer en Etablissement d’Hébergement pour Personnes Agées Dépendantes (E.H.P.A.D.) ?, mémoire de DUT, année 2004-2005.

[14]             I. Sarrazin, Oser promouvoir la liberté d’aller et venir des usagers, ASH, n°2390, 14 janvier 2005.

[15]             M. Personne, Ilinx ou le jeu de la vie. Des formes nouvelles d’animation en réponse aux démences des personnes âgées, Doc’animation en gérontologie, n°6, janvier/mars 2005.

[16]             « Reconnaître le métier d’animateur en gérontologie », ASH, n°2335, 28 novembre 2003.

[17]             Plusieurs ateliers créés par diverses institutions sanitaires en lien avec des structures culturelles ou artistiques extérieures ont été portés à notre connaissance : ils proposent, avec le concours de professionnels spécialistes de telle ou telle technique artistique des outils dits « innovants » sur le plan thérapeutique. Souhaitons que ces professionnels s’interrogent aussi sur leur fonction spécifique dans ce type d’activités au-delà d’opportunités éphémères. J’ai appris aussi que certains ateliers étaient obligatoires : il est clair, me semble-t-il, qu’ils n’ont rien à voir en ce cas avec la culture de l’animation ! Enfin la notion d’art-thérapie et sa démarche sont différentes de celle de l’animation : ce sont d’ailleurs souvent les facultés de psychologie qui proposent des modules en ce sens où l’art permet aux personnes « d’exprimer des pièces de leur histoire passée et présente », comme l’explique B. Méry infirmière et art-thérapeute (« L’art-thérapie, entre l’animation et la thérapie, un lieu où exister », Doc’Animation en gérontologie, n°6, janvier-mars 2005). 

[18]             O. Toulet-Castéra, Ecriture et hominisation, Dialogue, revue du GFEN, n°78, 1994.                

[19]             L’animation pour mieux vivre à domicile, ASH, n° 2382, 19 novembre 2004.

[20]             Nous ne donnerons pas les éléments permettant d’identifier le lieu professionnel concerné.

[21]             B. C,  L’animation : une autre approche de l’accompagnement, mémoire de fin d’études, février 1996.

[22]             D. Rabiller, L’intégration de l’animateur social et socioculturel en hôpital pédiatrique, mémoire de DUT, 2005. Elle relève l’existence de 309 animateurs dans le corps de la filière socio éducative de la fonction publique hospitalière au 31 décembre 2001.

[23]         Pour ce qui concerne l’hôpital il est peut-être nécessaire de rappeler ici quelques éléments du décret n° 93-654 du 26 mars 1993, qui définit "Le statut particulier des animateurs de la fonction publique hospitalière" : « Les animateurs…assurent le choix des activités adaptées aux personnes accueillies et participent à leur mise en œuvre. Ils…agissent en concertation avec les équipes sociales, éducatives et soignantes ».

[24]             Sur ce thème, il est possible de consulter le chapitre 1 de l’ouvrage que j’ai dirigé qui s’appelle « L’animation dans tous ses états (ou presque) », col. Animation et territoires, éd. l’Harmattan, 2005, et le chapitre 4 du dernier réalisé par mes soins qui s’appelle « L’animation en questions », Coll. Trames, éd. Erés, 2006. 


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