PORTUGAL - 28-29 mars 2007

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Tradução livre da comunicação do Professor Jean Claude Gillet
realizada durante o 4º Colóquio “Caminhos da Animação”
da E.S.E.Beja (Portugal)

Dias 28 e 29 de Março de 2007

Comunidade e Animação: que lugar para a acção?
PORTUGAL - Mars 2007
Jean-Claude Gillet

Um dos paradoxos da linguagem é que de um indivíduo para o outro, de um grupo social para o outro, de uma nação para a outra de uma língua para a outra multiplicam-se as armadilhas e as falsas comunicações: Foi assim que uma das minhas primeiras obras intitulada em francês : “Animateurs et animateurs.  Le sens de l’action" surgida em 1995 foi traduzida em Barcelona por “La animación en la comunidad. Un modelo de animación socioeducativa” (ed. Gráo). Da mesma forma uma obra que se intitula “L’animation professionnelle. Histoire, acteurs, enjeux », escrita cinco anos depois com o meu colega Jean Pierre Augustin, tornou-se na Colombia « La Animación Sociocultural. Estratégia de Accion al servicio de las comunidades” . Porquê tal diferença? De onde vem o facto da noção de “comunidade” familiar à tradição hispânica, latino-americana e mesmo anglo-saxónica não seja usada pelos franceses? Que analogia podemos fazer entre acção comunitária e animação sociocultural, sem todavia as confundir totalmente? Como podemos, desde logo, caracterizar a animação, largamente profissionalizada muito particularmente em França? Qual o seu sentido, qual o alcance, quais as práticas?

  1. Um pouco de história.

Em França, a noção de comunidade é pouco utilizada: isto é o resultado de uma concepção  antes de mais centralizadora da Republica ao serviço do interesse geral[1], não reconhecendo a legitimidade das particularidades (chamadas neste caso de particularismos). Esta situação é diferente no Quebec, na maior parte dos Países nórdicos, anglo-saxões e da América Latina onde muitas vezes a constituição por estes últimos (depois do massacre das populações locais pelos colonizadores) foi o resultado de um agregado de grupos parecendo  restos dos povos indígenas, migrantes de origem europeia, africana e asiática afirmando cada um a sua pertença ao país de acolhimento e ao das suas origens, vivendo assim uma identidade partilhada, que nem sempre é idílica. Ela é diferente também em Espanha onde as Comunidades autónomas têm muito mais poderes e competências que as regiões francesas saídas da política dita de “descentralização”.

            Durante muito tempo a Republica francesa, durante e após a sua criação nos séculos 18 e 19, tratou com desprezo o facto colectivo e comunitário e valorizou a relação particular, em nome da igualdade entre o cidadão e o Estado, representando este o interesse geral. Compreender esta norma não se pode realizar sem fazer referência ao pensamento político de J.-J. Rousseau e à sua obra O Contrato Social . De uma maneira algumas vezes libertária e anarquista  precoce, ele exaltou a liberdade do indivíduo. É o conjunto dos cidadãos reunidos que funda a soberania popular a qual vai até à votação dos impostos. Mas, ele afirma correlativamente uma exigência política particular: para ele, somente os territórios restritos (pequenos estados, cidades) podem permitir a exercício da virtude da cidadania. O trabalho político não se divide e recusa a delegação de poder, próximo neste aspecto de G. Babeuf (líder pré-comunista da Revolução francesa, fundador da Sociedade dos Iguais) que exige mandato imperativo e a revogabilidade por todos os representantes do povo.

            Rousseau é de facto um pessimista visto que escreve “a democracia é obra de um povo de anjos”[2]. Consequentemente, para conciliar o inconciliável, que dizer a liberdade do indivíduo com as exigências da vida em sociedade, “importa, portanto, para cumprir bem o enunciado da vontade geral, que não haja sociedade parcial no Estado  e que cada cidadão opine apenas em seu nome”[3]. Todo o grupo particular é considerando pernicioso e a Democracia tende a reduzir-se à expressão de uma Republica ilusória porque recusa todo o grupo intermediário que considera como produtor de desordem. Este princípio político reforça-se numa exigência afectiva, vigoroso de nostalgia, de transparência, de comunicação entre os indivíduos, da sua harmonia universal e uma exigência moral, a virtude da união. A sua republica democrática supõe implicitamente a unanimidade ignorando a luta e os conflitos.

            A Revolução francesa vai inspirar-se em Rousseau e recusar todo o agrupamento e associação, temendo tanto os republicanos de então o regresso das corporações bem vivas sob a realeza como as primeiras organizações operárias emergentes. Toda a coligação é percebida como uma fractura na única associação soberana reconhecida, a Nação; é um obstáculo à expressão da vontade geral. Foi preciso esperar mais de um século para que a proposta de lei de Waldeck-Rousseau, um republicano moderado, fosse adoptada sob o nome de “lei de 1 de Julho de 1901, relativa ao contrato de associação”. Esta lei preconiza o exercício de uma solidariedade intermediária favorecendo a educação de cidadãos livres, conscientes e responsáveis, à intercepção de uma aproximação individual e de uma aproximação societal: “cada um é doravante livre de se associar, de não se associar,  de não mais se associar”.

            No balanço desta batalha ideológica de ontem, a associação tornou-se definitivamente uma operadora de mediações entre o cidadão e o estado: “a associação, afirma Waldeck-Rousseau, ensina aos homens a ajudar-se, a conhecerem-se e substitui ao egoísmo individual a fé fecunda da fraternidade”. Sem esta lei, nem a educação popular, nem a animação sociocultural teriam conhecido um tal sucesso: eis um belo exemplo de uma lei republicana favorecendo a expressão da cidadania.

            A vida associativa permite uma aprendizagem da ajuda recíproca, o reconhecimento mútuo entre pessoas, a busca da solidariedade. Ela funda uma moral que recusa o individualismo egoísta. É isto a “res publica”, a coisa publica que advém de uma educação, de uma tomada de consciência (que vem do latim “cum-scire”, quer dizer, saber em comum, saber partilhado) permitindo o desenvolvimento do julgamento pessoal. Ao inverso ao homem inconsciente é aquele que é incapaz de ter um julgamento autónomo.

            Uma tal perspectiva saída da nossa história singular permite compreender a renitência francesa em utilizar o termo comunidade, renitência presa pela confusão recente introduzida a partir do fenómeno do véu na escola que conduziu á lei de Março de 2004 sobre a reafirmação da recusa de todo o sinal religioso ostentatório nesta instituição. É preciso dizer que ainda aí a linguagem goza connosco, porque a noção de comunidade pode ser também definida como um sistema de crença socio-política particular, diferente dos outros, implicando um critério de pertença não escolhido, apresentado como identitário, quer dizer imutável, tal como a raça, a etnia, a religião ou a orientação sexual. Trata-se, parece-me, de uma confusão entre “comunidades” e “organizações comunitárias”: estas últimas existem tendo por objectivo obter um monopólio da representação da comunidade junto dos poderes públicos e de outras instituições. Os que aí não se integram, que não têm este sentimento de pertença, são entendidos como “traidores” (como os negros dizem “bounty” negro por fora, e branco por dentro, ou como um animador de Guadalupe, negro das Antilhas e trabalhando nas Antilhas que me explicava que era designado em Pointe-à-Pitre sob o vocábulo de “negropolitano”[4] pelos outros negros). Como o explica a filósofa Dominique Schanapper no Le Monde de 11  de Novembro de 2004, na nossa democracia existe uma tensão “entre universalismo e particularismos” de que a resolução favorável lhe parece ser a que ela chama “a comunidade dos cidadãos” para “ não ficar prisioneiro das suas únicas comunidades de pertença ou de eleição, herdadas ou escolhidas”.

            É a partir deste tipo de problemática colocando a questão das relações entre os geral e o específico que podemos agora compreender a perspectiva da animação sociocultural.

  1. O elo social : que articulação entre as noções de indivíduo e de colectivo?

Ph. Corcuff, mestre de conferências de ciência política no Instituto de estudos políticos de Lyon, enuncia numa das suas obras recentes[5] que a individualização é um processo longo nas sociedades ocidentais, que os sociólogos (como N. Elias) fazem remontar ao Renascimento com um grande desenvolvimento no século das Luzes. Ele pensa que este processo se acelerou tomando novas formas, com o surgimento de uma cultura narcísica. É preciso, diz ele, compreender que este individualismo comporta dois aspectos, o da emancipação que ele supõe em relação às normas tradicionais, mas também o dos riscos de um comportamento excessivamente narcísico desligado dos colectivos e tornando o indivíduo “doente de si próprio”. Esta sociologia das ambivalências age sobre as relações entre o eu e o nós, provocando tensões e compromissos entre o que ele chama o indivíduo “só” e o indivíduo “com”. As identidades anteriores dissolvem-se e as novas têm dificuldade em desabrochar provocando crises no motivo da existência dos indivíduos[6]. Corcuff[7] demonstra que quer a esquerda e a direita têm, os primeiros, o individualismo mal compreendido, enquanto que os segundos fazem dele um mal necessário para o desenvolvimento do mercado.

Para a esquerda, o individualismo está na origem da aquisição de emancipadores, tais como a autonomia e libertação das dependências herdadas (ontem do tributo ou da feudalidade, hoje da família), movimento de libertação das mulheres, novos direitos das crianças, começo do reconhecimento dos modos de vida homossexuais, formas mais flexíveis da acção colectiva etc. Doravante a luta contra as desigualdades e as descriminações pode afirmar-se, conciliando-as com medidas favorecendo ou respeitando a autonomia dos indivíduos.

Os animadores estão directamente implicados nesta lógica dupla, visto que nos sectores do lazer, da saúde, do ambiente, da cultura, do património, etc. sem ocultar o trabalho de democratização da vida  associativa e da sua organização, os campos de actividade são numerosos. Com efeito o crescimento do individualismo não significa o fim da política. Para Corcuff, a emergência e a reinvenção em curso, sob o aguilhão especialmente da expressão das singularidades individuais, de relações mais diversificadas ao  empenho colectivo convidam a recusar uma retórica nostálgica do “todo colectivo” moribundo e regressivo[8]. É, neste sentido, que é hoje em dia talvez possível conceber uma vida democrática capaz de construir uma dialógica (“combinação de duas lógicas contraditórias, antagónicas e complementares” explica E. Morin), saída do encontro difícil entre a lógica e a sociedade civil, a democracia participativa, e a lógica da sociedade política, a democracia representativa[9].

No campo da sociologia, Ch.-H. Cuin e Fr. Gresle, recordam-nos uma visão próxima de E. Durkheim, para o qual “os indivíduos, nas sociedades modernas, ganham pouco a pouco a sua autonomia em relação à sociedade embora eles dependam cada vez mais dessa sociedade para a sua própria sobrevivência”[10]. Na obra Da divisão do trabalho social ele realça que ela encoraja a afirmação da identidade individual, “esta libertação: porque as naturezas individuais, quando se especializam, tornam-se mais complexas, e, por isso mesmo, são subtraídas em parte à acção colectiva e às influencias hereditárias que não se podem exercer senão nas coisas simples e gerais”. Diversas vezes K Marx, ele mesmo, não significa outra coisa. Na obra A crítica do programa de Gotha, ele escreve que a emancipação definitiva do homem existirá assim que a sociedade possa escrever sobre a sua bandeira: “De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades”, afirmando assim, no seu Manifesto, que “ o livre desenvolvimento de cada um será a condição do livre desenvolvimento de todos”.

Numa obra colectiva, surgida na Suíça sobre animação, um dos autores cita em particular uma obra (não traduzida em francês) do sociólogo e filósofo U. Beck: “A tendência à individualização, diz ele, não implica necessariamente o fim do universo social e o seu rebentamento numa multitude de bolhas de egoísmo. Ainda que, no nosso antigo sistema os modelos do Nós (por vezes elaborados pelos indivíduos) tenham sempre sido tomados pelos do Eu, vêem-se emergir hoje neste novo envolvimento que poderíamos chamar um individualismo altruísta. O que parece a priori excluir-se – pensar em si e estar com os outros – revela de facto uma coerência interior: aquele que vive para si vive forçosamente sobre um plano social”[11].

Um tal contexto,  se é descrito de maneira pertinente, coloca à animação e aos animadores profissionais uma questão fundamental sobre o devir da ideologia que os constitui em França desde há quarenta anos ( e fora dela em geral mais recentemente) e sobre a metodologia que os organiza a partir de acções colectivas, grupais ou comunitárias. Mas ao mesmo tempo na articulação entre espaços públicos e espaços privados, eles podem fundar a sua acção sobre o facto que “ a necessidade de autonomia está a par com a da pertença ao grupo social” e sobre a impossibilidade de se representar o indivíduo sem a sociedade, “ o meu sem o nosso” lembra N. Elias[12]. Eles podem também lembrar-se com H. Arendt que todos os totalitarismos procuraram aniquilar a individualidade e a espontaneidade humana e que a subjectividade deve ser vista como uma construção de si de maneira activa numa vida que continua incompreensível sem a tomada em conta da dimensão socal e colectiva[13]. M. Vieworka não diz outra coisa: “ O impulso do indivíduo e a sua vontade de subjectivação, o desejo de cada um de se constituir em actor da sua própria existência não são apenas incompatíveis com o emergir das identidades colectivas, mas também a alimentam”. A subjectividade pessoal activa consideravelmente a produção das acções colectivas pela construção permanente de si mesmo em interacção com as construções de outrém.

Para concluir aqui, um postulado metodológico e teórico impõe-se para evitar todos os mal-entendidos. E. Schweiguth, investigador no CEVIPOF da Fundação das Ciências Políticas, fornece a ideia num artigo publicado no site da SOFRES (Instituto de estudos e investigação de mercado e de opinião internacional) em 2004 na internet: «“individualismo” é uma palavra traiçoeira. Tem um sentido na linguagem corrente e outro nas ciências sociais. O uso corrente , ele designa o egoísmo e a tendência de cada um para si. Neste sentido, é muito duvidoso que tenha havido um aumento de individualismo. De facto, nós mudámos de sociedade. A solidariedade de vizinhança  foi recentemente substituída por uma solidariedade que passa pelas instituições pelos media e as associações... Nas ciências sociais, a palavra individualismo tem outro sentido: designa um sistema de valores no qual o indivíduo humano é o valor cardinal. O indivíduo é aí considerado antes de tudo na sua identidade individual e não na sua identidade colectiva. A sua vida, a sua segurança, a sua liberdade, o seu desenvolvimento físico, intelectual, cultural, psicológico, etc. são, para as sociedades europeias, o objectivo supremo... No sentido nobre do termo podemos dizer que existe um individualismo europeu... A  liberalização dos costumes inscreve-se perfeitamente neste sistema de valores que considera, depois da Declaração dos Direitos do Homem de 1789, que a liberdade consiste em poder fazer tudo o que não afecte a outrém”[14].

      Ele apressa-se a acrescentar que um dos “grandes fantasmas de hoje é dizer-se que os valores colectivos desaparecem”. Da mesma forma ele constata um desinteresse pela política dos partidos mas não pelos assuntos políticos da cidade em geral: o sentimento democrático continua forte, pensa também J.-F. Tchernia, outro investigador, da mesma forma que a articulação do individual e do colectivo (em particular a valorização dos comportamentos cívicos). Já em 2000[15], ele constatava que “se a individualização progride, a solidariedade subsiste e a necessidade de regras sociais também” e “que um número crescente de cidadãos estão capazes de participar em acções de protesto tais como manifestações, boicote ou greves selvagens. Este modo de participação política, menos convencional que o voto, apresenta muitas vantagens: é mais objectivo, permite clarificação de posições e é ao mesmo tempo mais informal. Ele corresponde bem ao individualismo crescente da nossa sociedade”. Ele conclui que “o laço social que por vezes apresentamos como estando em declínio está mais vivo que nunca. Simplesmente, ele passa mesmo que outrora pelas identidades colectivas ou pelas ideologias e muito mais pelas relações interpessoais”[16].

O meu colega J.-P. Augustin interessa-se também por esta questão: segundo ele a mutação das actividades de lazer conduz a mudanças que “levam à aparição de valores mais individuais que transformam a relação consigo mesmo, a relação com os outros e a relação com o espaço”[17]. Ele vê aí de maneira positiva “um novo espaço de expressão livre para o exercício do corpo, a cultura e o desenvolvimento de actividades mais espontâneas e mais autónomas”. Ele conclui que se as divisões entre grupos sociais e classes são sempre perceptíveis elas são também menos impermeáveis que no passado às relações sociais na empresa, na escola, nas famílias ou através dos lazeres “com novas solidariedades que se constróem” sendo cada um “de um e muitos sítios ao mesmo tempo” nas práticas associativas, desportivas ou culturais mais flutuantes no seio de uma “sociedade de individualização manifestando uma consciência alargada de pertença, ou seja, de multi-pertença”, longe do dobrado sobre si mesmo do individualismo.

Eis que remete no seu justo valor algumas aproximações que colocam de forma definitiva “o egoísmo” nas nossas sociedades ocidentais e o seu desprezo pelo colectivo, mesmo que seja preciso estar atento às distancias entre as ideias afirmadas e os  factos ou as práticas.

H. Wettstein na sua obra suíça já citada sobre a animação sociocultural resume bem o que espera os animadores. Para ele, “o indivíduo está sempre no centro da animação”, mas esta aproximação não é unicamente pessoal, “uma vez que a animação considera o ser humano na sua dimensão social e quer que este não possa completar-se senão através das suas relações com os outros”. A vontade de se realizar, a aptidão para comunicar, para criar e para cooperar realizam-se para todos os indivíduos no facto de “decidir individual e colectivamente do seu modo de vida”, sem esquecer de tomar em conta as disparidades sociais. “Estamos pois longe da visão de Hobbes onde o homem sem respeito pelos outros, tem por único horizonte a sua própria pessoa”. A animação que em França se fundou nos anos sessenta à volta do eixo participativo pode assim dar uma nova vitalidade a esta noção tendo em conta as aspirações actuais dos indivíduos, desejosos de manifestar a sua capacidade de compreender “o sentido e a utilidade de uma cooperação pacífica... existe um espaço de liberdade individual e colectiva, não absoluto, mas suficientemente amplo para que o indivíduo e as comunidades julguem essencial de  apropriar”. Ignorá-lo ou desprezá-lo, como é o caso por exemplo para alguns bairros populares, apenas pode provocar frustração, cólera, e violência anárquica.

Eis um eixo de trabalho a reconquistar seguramente pelos animadores, mas também pelos trabalhadores sociais em geral: permitir ao indivíduo e à comunidade denominar as situações para melhor as aproveitar. Esta aproximação consciencializante permite a cada um melhor poder defender os seus interesses e os seus valores, paralelamente a uma acção participativa e democrática, sem ilusão, fundada na afirmação de uma vontade política. E esta visão parece partilhada por alguns daqueles que recrutam animadores: S Akin e O Douard (os dois sociólogos, um na universidade de Rouen e outro no INJEP), depois do seu inquérito acerca das ofertas de emprego na animação, concluem com uma orientação similar: ”Os empregadores parecem   procurar algumas vezes, através dos empregos de animação, profissionais «militantes», mais políticos que os trabalhadores sociais tradicionais como o demonstram os anúncios de algumas ofertas de emprego... Eles excluem da oferta técnicos e preferem descrever um contexto, uma situação de crise ou uma dificuldade particular em relação a um público, um território no qual o profissional possa exprimir o seu saber-fazer e os seus valores”[18].

      Em resumo, o panorama da animação sociocultural parece caracterizar-se por:

-          acções, práticas, relações, intervenções,

-          respeitantes a toda a vida quotidiana dos indivíduos e dos grupos, em relação com os interesses ou as necessidade políticas, intelectuais, sociais, físicas, no trabalho, nos lazeres e no tempo livre, no divertimento, no relaxamento, nas actividades cívicas, nas relações de vizinhança, na cultura, na criação de difusão de obras, na arte e na estética;

-          estas acções estão baseadas no voluntariado dos públicos a que se destinam e opõem-se a um simples consumo cultural passivo;

-          elas exercem-se antes de mais em grupo, mesmo que tenham efeitos individuais,

-          com a ajuda de animadores benévolos e de cada vez mais profissionais,

-          em estruturas associativas e territorializadas, com ateliers cada vez mais especializados,

-          com técnicas que não se reduzem a uma simples metodologia, uma que a ideologia militante da Educação Popular ainda é muitas vezes o recurso, mesmo que por todo o lado as exigências de qualificação e de competência se afirmem cada vez mais.

Em diferentes trabalhos desde há vinte anos[19], expliquei que a animação era ao mesmo tempo a herdeira da Educação Popular francesa e um momento de rotura, porque o animador profissional encontra-se situado num imbricado complexo e cruzado de diversas legitimidades (retomando as classificações de cidades propostas por L. Boltanski e L. Thévenot, 1991): a do animador militante, correspondendo à “cidade inspirada”, quer dizer, de valores transcendentes, a do animador técnico, correspondendo à “cidade industrial”, quer dizer de qualidades de especialista e de eficácia, e a do animador “mediador” correspondendo à “cidade cívica” quer dizer da luta contra a crise do laço social e pelo interesse geral participando assim numa regulação permanente das relações  sociais democráticas. Aqui é também preciso fazer apelo a uma dialéctica da complexidade que emana de um  idealismo político e filosófico dependente da imposição para o animador a ser apenas um militante que se trata à maneira dos excluídos do saber e do poder.

É a razão pela qual o animador deve aprender a rodear, a jogar, a ocupar um papel pertinente a tornar-se um estratega inteligente no sentido em que é capaz de reunir, de calcular, de organizar, realizando um sábia dosagem de combinações onde a arte da astúcia tem lugar. Um profissional da animação deve abordar o seu território como um espaço onde se confrontam actores, em que as lógicas de acção se jogam a um nível de constrangimentos e de recursos num campo atravessado por interesses múltiplos que vão obrigá-lo sem cessar a modificar a sua posição no interior desta triangulação que constituem as figuras do animador militante, do animador técnico e do animador mediador. Neste sentido o animador não um técnico apolítico mas o actor de uma praxis social e cultural, um profissional da méthis e do kaïros, profissional astuto que sabe agarrar as oportunidades capazes de permitir a todos tornarem-se cidadãos-decisores na cidade, nos lazeres, na casa de repouso, nas estruturas para deficientes, no hospital, etc. É essa a militancia do animador profissional empenhado e inspirado por convicções (uma ética fundada em valores diriam outros)[20].

            Neste jogo democrático no qual os animadores participam, nesta visão de mudança que está na base da visão democrática, a animação ( e esboço aqui um início de definição) pode representar um papel positivo considerando-se como uma pedagogia onde se pode experimentar o reconhecimento do outro, a possibilidade para cada um, se assim o desejar, de exercer um poder, mesmo que mínimo, e uma capacidade de transformação da realidade, participando na elaboração da lei democrática e dos interditos que daí emanam, para fazer face às turbulências da desordem, da loucura, da desmesura. Mobilizada pela mudança das instituições, a animação, na visão educativa que é a sua, procura fazer com que cada um compreenda as situações que vive, possa reagir contra os constrangimentos insuportáveis que sofre e agir para afirmar o seu lugar no tecido social e colectivo, e também o carácter irredutível da sua singularidade individual. É neste sentido que projecto individual e projecto colectivo se alimentam mutuamente de maneira positiva numa interacção enriquecedora que pode algumas vezes derivar do caos e da desordem. Como sugere Marx com malícia: “a razão sempre existiu, mas nem sempre sob a forma razoável”. Numerosas desordens estão no centro de apelos indirectos a uma ordem mais justa, mais igualitária, mais racional.

            Por certo, o modelo teórico que nos propõe a filosofia da praxis não esgotará nunca o real. Tem os seus limites, mas tem também a vantagem de nos indicar uma via (algumas vezes conflituosa) pela qual pode existir uma relação entre o pensamento e o mundo, entre o homem que pensa e o mundo, pela praxis. Esta ligação entre teoria e movimento, esta articulação dialéctica não é simples, mas a práxis não se limita um fazer, a uma actividade no estado puro: é uma acção concertada é uma acção precedida e acompanhada de decisão e de avaliação. A não transparência da sociedade é um facto social. A praxis pode restabelecer as condições de uma transparência relativa.

A animação pode ser um meio de colocar em tensão  criativa uma prática e uma teoria para compreender as práticas melhorá-las, reajustá-las. A actividade de animação contém nesta condição uma visão formativa, com uma direcção, um sentido, e, a este título fornece uma possibilidade aos poderes (económicos, sociais, culturais). Ela não é nunca nem totalmente escrava, nem totalmente liberta dos constrangimentos que pesam sobre ela.

O esquema pluralista assim delineado permite integrar na análise os níveis intermediários que se situam na intercepção do local e do global, do indivíduo e da sociedade, os espaços de vida e de relações entre os indivíduos pela mediação dos colectivos aos quais eles pertencem. O animador profissional é em permanência confrontado nos diferentes grupos que compõem a sociedade concentrados cada um á volta de interesses comuns, em comunicação ou em oposição como os outros grupos sociais. Estes grupos participam eles também numa praxis que os coloca em estado de inventar soluções novas com o fim de transformar parcialmente a sociedade em lugar de simplesmente a suportar.

Considerar a animação  como uma praxis uma vez que ela é um agir, e portanto querer dizer e afirmar que há verdadeiramente nesta noção de animação uma perspectiva de mudança social. Uma praxis quer dizer uma prática consciente de si mesma, busca reconciliar teoria e prática num processo dialéctico e circular, numa interacção permanente e criativa. Em consequência, e nesta perspectiva, as pesquisas sobre a animação devem situar-se na ordem daquilo que se chama uma praxiologia que, mais que ciência da prática ou da acção evoca a ciência da praxis, quer dizer o movimento de vai-vem entre o vivido “vécu” a prática e o pensamento.

As problemáticas e os campos de investigação em que devem investir os profissionais da animação nas suas funções focalizam-se em torno do “local”, que obriga a cruzar perspectivas cientificas distintas (mesmo que introduzam desvios de análise), tais como uma sociologia do actor, referindo-se por exemplo aos aspectos da tomada de decisão nas situações sociais, a psicossociologia no que respeita às funções de mediação dos corpos intermediários que são os grupos sociais, e um sociologia política e sistémica permitindo estabelecer o elo entre o local e o global.

A função educativa é hoje interrogada nas nossas sociedades por um certo numero de evoluções e de pressões observáveis: a lei é submissa mais que ontem á opinião pública, à evolução dos costumes, ao indivíduo contemporâneo ávido da sua autonomia, ao mercado que destabiliza os equilíbrios e as instituições nos seus valores educativos e nas práticas que daí decorrem.

Ao mesmo tempo existe uma dúvida na sociedade sobre si mesma, sobre o seu futuro. A minha opinião é que é impossível de transmitir uma mensagem, uma ideia, uma reflexão, uma análise, sem uma forte convicção. Não existe forte convicção sem imaginação para o futuro e sem utopias a reinventar.

É em todo o caso esta orientação que inspira largamente o ISIAT (Instituto Superior de Engenheiros Animadores Territoriais) polo de Bordéus da animação através das suas formações, dos seus recrutamentos, das suas pesquisas, das suar redes nacionais e internacionais, dos seus colóquios, das suas publicações, dos seus parceiros locais da Educação Popular, centro associados a todas as nossas iniciativas. Mas falta ainda muito a fazer.

Esta abordagem da animação sociocultural de visão territorial e democrática não seria também aquela a que chamamos voluntária nos países de influencia hispânica e lusitana especialmente a acção comunitária?

 

3.       A animação e as suas analogias

 

A acção comunitária é uma forma de organização colectiva que é uma alternativa muitas vezes à acção do serviço social individualizado (à volta do famoso modelo profissional chamado case-work), com a figura bem conhecida no mundo inteiro (o quase) do assistente de serviço social que é quase sempre uma assistente. Esta acção comunitária apoia-se sobre os recursos humanos de uma comunidade (étnica, linguística, cultural, religiosa ou simplesmente territorial) em vista de uma mobilização para o desenvolvimento de um território ou de um grupo de maneira a responder às necessidades e às exigências que aí se exprimem.  Este pode conduzir a uma situação conflituosa com as autoridades diversas (administrativas, políticas) mas também a projectos comuns negociados entre todos os actores. A acção comunitária pode transformar-se em comunitarismo, quando ela assume a forma de uma afirmação integrista, ou seja, intolerante da sua identidade: ela pode colocar em perigo o elo e a comunicação com outros grupos constitutivos de uma sociedade, de um povo, de uma nação.

A acção comunitária não está muito longe da expressão “community organisation” em inglês e “socialpädagogik” em alemão, da animação social no sentido que lhe atribuem por exemplo os brasileiros, equivalente aproximadamente à animação sociocultural francesa.

Colocar em prática projectos ditos de animation sociale no sentido utilizado pelos italianos, os espanhóis ou os portugueses (ou na América Latina, o el desarrollo comunitario: dito também em certos países anglo-saxónicos the community development; ou ainda Le developpement communautaire no Quebec), permite valorizar as analogias de prática e mesmo de orientação teórica. Esta constatação é uma evidência se definirmos o desenvolvimento comunitário como a integração de grupos excluídos ou marginalizados numa troca e um debate de cidadania alargado fundando-se nas capacidades sociais e culturais de cada uma das comunidades a que respeitam. Mas, de maneira mais geral, para todos os públicos, animação social e perspectiva comunitária são consanguíneas pois que são as duas fundadas sobre a afirmação que os problemas sociais são de natureza colectiva e devem portanto ser objecto de soluções colectivas.

Em consequência os animadores ditos “sociais” podem afirmar a sua identidade profissional numa proximidade comunitária que procura ultrapassar os interesses individuais fundando-se sobre o sentimento de pertença partilhado ao nível territorial ou institucional sobre os interesses que unem os actores a que respeitam (os utilizadores de serviços, por exemplo, ou as populações mas em diálogo – se possível – com os eleitos e os representantes das instituições) e sobre a ideia participativa da comunidade de base no debate publico na resolução de “situações-problemas” com os quais são confrontados no seu Dictionnaire du travail social o argentino E. Ander Egg associa como equivalentes “animación de base” (animação de base) e “desarrollo comunitario” (desenvolvimento comunitário). Além disso ele indica que “a acção comunitária articula-se com o desenvolvimento local, visando sensibilizar e motivar as pessoas para que elas participem na solução dos seus próprios problemas” Este método (a participação) este programa de acção (fundado em projectos), este processo (com a estratégia que implica) este movimento (da ordem da acção social) entra em correspondência e em sinergia com a cultura da animação.

É preciso dizer que a noção de pedagogia social, expressão pouco utilizada em França mas fortemente na América Latian, é relativamente próxima da de animação ou  de acção comunitária, porque ela se define da maneira seguinte: “o objecto da pedagogia social não será conhecer exclusivamente a realidade socioeducativa, mas transformá-la, aí intervindo por intermédio de pressupostos e de estratégias de tipo educativo, para a realização de objectivos pedagógicos ou sociais que supõem ou supuseram uma mudança ou uma modificação no comportamento dos indivíduos (aprendizagem de condutas)”. Podíamos dizer a partir desta definição que a animação sociocultural é uma pedagogia social porque ela deriva de uma praxis, quer dizer de uma dialéctica, de um colocar em tensão de duas lógicas diferentes, a do pensamento e da acção, da teoria e da prática, do saber e do fazer, de maneira a construir, por exemplo, modelos de acção para uso dos actores  no terreno, profissionais da animação ou militantes da educação popular, em ligação com os públicos com os quais eles cooperam, com a condição que uns e outros sejam capazes de tornar-se individual ou colectivamente praticantes reflexivos. A expressão de comunicação social, é em definitivo muito próxima da precedente, respeitando aos processos de comunicação visando favorecer a consciencialização como P. Freire exprimiu na “pedagogia dos oprimidos”.

A educação social é também uma noção pouco ou nada usada em França. Prefere-se a de integração ou melhor ainda de inserção social para as categorias mais jovens da população. E. Ander Egg define-a assim: “A educação social (como parte da pedagogia social) comporta uma série de quadros de intervenção todos quase comuns com o trabalho social: inadaptação e marginalidade social, prevenção socioeducativa da marginalidade, prevenção e tratamento dos toxicómanos, educação para o tempo livre, educação para a terceira idade, educação cívica, educação para a paz, educação dos adultos, animação sociocultural, etc.”.

É preciso aqui prevenir-vos: tomai consciência da relatividade das definições propostas e do cruzamento que muitas vezes elas sugerem. Estas dificuldades residem na história de cada país e na história de cada autor (suas orientações ideológicas, cientificas, teóricas, disciplinares, etc.). Como explica X.Ucar “Estou consciente que não resolvemos o problema inventando outros nomes que ou designarão outras realidades diferentes ou mais específicas, ou contribuirão a tornar ainda mais indefinível ou acrescentar a confusão, actualmente já suficientemente problemática[21]”. Podemos ter a impressão aproximando os povos e as culturas de renovar algumas vezes a Torre de Babel; tal é em parte o destino do investigador.

 

 

 

 

Conclusão: E agora que perspectivas?

 

A animação sociocultural deseja desenvolver um ideal democrático no qual existe uma procura de uma ligação coerente entre o método e a filosofia da acção proposta: no futuro qualquer organização deve analisar o seu funcionamento institucional, as suas estruturas, a sua adaptação à acção, o poder que ela exerce junto dos grupos de população com os quais ela constrói um projecto e não somente para os quais ela trabalha. Esta acção (intitulada participativa) é um factor de tomada de consciência das dificuldades de um funcionamento democrático numa sociedade global ou num território local e ao mesmo tempo um guia para esta aprendizagem difícil da democracia na ligação dirigente – dirigidos, dominante – dominados.

 

É um processo social normal que obriga sem cessar ao requestionamento sobre a definição da cidadania num contexto em que os processos de individualização (a sociedade dos indivíduos à procura da sua autonomia), tem dificuldade em favorecer os processos colectivos. A figura emblemática do militante sempre disponível renunciando à sua singularidade pelo facto de abraçar a causa da sua organização dissolveu-se. As redes operárias perderam as suas elites e os apelos à participação pouco ultrapassam o estado do slogan. O saber e a cultura tornaram-se mais do que nunca em mercadorias e as formas tradicionais da solidariedade ficam sem resposta.

Enquanto que no sec. XVIII ser racional significava que no homem, paixão e razão não se excluíam, hoje a racionalidade dominante é instrumental e tende a colocar unicamente a questão dos meios e do como, e não mais a dos valores e do porquê. O percurso operacional do capitalismo liberal sobre o pensamento do sujeito tende a evacuar o imaginário social e o projecto a desenvolver de um outro tipo de sociedade que pode arrancar a partir daí. Um colégio espanhol lembra-nos judiciosamente que “ a ONU …. A través de su informe sobre el Desarollo Humano de 1993 (PNUD) concluye que tan solo un 10% da población mundial influye en las decisiones que afectam a su vida[22]. É neste sentido que se pode dizer que o capitalismo violenta a democracia.

            Neste jogo democrático no qual os animadores participam, neste objectivo de mudança que está na base da visão democrática, a animação ( e eu esboço aqui um complemento da definição) pode afirmar um papel positivo ao considerar-se como uma pedagogia onde se pode experimentar o reconhecimento do outro, a possibilidade de cada um, se ele o deseja, de exercer um poder, por menor que seja, e uma capacidade de transformação da realidade, ao mesmo tempo que participa na elaboração da lei democrática e dos interditos que dela derivam, para fazer face às turbulências da desordem, da loucura, da desmesura. Mobilizada para a mudança das instituições, a animação, na perspectiva educativa que é a sua, procura fazer com que cada um compreenda as situações que vive, que possa reagir contra as adversidades insuportáveis que a assolam e agir para afirmar, ao mesmo tempo, o seu lugar no espaço social e colectivo que é necessário tecer e também o carácter irredutível da sua singularidade individual.

Esta análise pode atravessar as fronteiras e se seria injusto afirmar que nada se tem feito, que nada se tem dito ou nada se tem escrito sobre a animação nos últimos anos, parece ao contrário pertinente afirmar sem nos enganarmos que o Colóquio de Bordéus acelerou o processo, reforçou os eixos da pesquisa e alargou o campo dos encontros de culturas diferentes em volta da animação. O 1º colóquio universitário e científico sobre “A Animação em França  e as suas Analogias com o Estrangeiro”, colóquio organizado pelo Instituto Superior de Engenheiros/Animadores Territoriais (ISIAT) da Universidade Michel Montaigne (Bordéus 3), teve lugar em Bordéus (França) nos dias 4, 5 e 6 de Novembro de 2003 (http/colloque.cs.free.fr/).

Mais de 220 pessoas estiveram neste colóquio. Perto de 60 participantes de origem estrangeira, representantes de 22 países (América do Norte, Central e do Sul, Caraíbas, Africa do Norte e Central, Médio Oriente e Europa). Metade de entre eles eram professores investigadores e os outros participantes representavam as federações de educação popular, dos serviços administrativos de colectividades territoriais, dos sindicatos, de assalariados do sector da animação, de representantes de associações e dos assalariados do sector social, cultural e educativo, etc.

Cerca de 80 comunicações[23] foram apresentadas e várias publicações dão conta da riqueza destes trabalhos, sem esquecer o Reseau International de l’Animation situado em Bordéus.

O 2º colóquio internacional sobre animação teve lugar em S. Paulo a 12, 13, 14 e 15 de Setembro de 2005, sob a responsabilidade da Universidade Pontifícia Católica desta cidade. Reuniu cerca de 120 pessoas, 12 países representando 3 continentes com várias dezenas de comunicações (http://www.pucsp.br/coloquioanima2/) ligadas ao tema seguinte: “cidadania e democracia: desafios da animação sociocultural e social na mobilização, na participação e na intervenção”.

O 3º colóquio que terá lugar em Lucerne na Suíça a 26, 27 e 28 de Setembro de 2007 intitulado “animation socioculturelle et/ou developpement communautaire: enjeux locaux et globaux” é organizado pela HSA de Lucerne. Tentaremos abri-lo aos paísses do extremo oriente, ao mundo anglo-saxónico aos países nórdicos, aos países bálticos, aos antigos países da ex-URSS e também à África se possível (http://www.communitydevelopment2007.ch/) .

Entretanto após 2003, muitas iniciativas tiveram lugar por todo o mundo: colóquios internacionais sobre animação em 2004 na Universidade do Quebec em Montreal e na Univesidade de S. José de Beirute; em 2005 e 2006 em Chaves em Portugal organizado pela UTAD mas também por outras universidades portuguesas; em Barcelona no mesmo ano sobre “participation, animation, intervention socioeducative” realizado pela Universidade Autónoma; em Montevideu sobre “Jogo, recreação, tempo livre” organizado pelo Forum Permanente do Tempo Livre e da Recreação, ainda em 2005 enquanto que o centro Recreándonos  queria regularmente seminários de animação social e cultural.

É preciso falar ainda do RIA (Rede Ibero-americana de Animação Sociocutural:  http://www.rianimacion.org/) que prosseguiu no colóquio de Salamanca em Outubro de 2006 o de Otava no Canadá. É preciso mencionar também os colóquios previstos este ano ou já realizados na Venezuela, Uruguai, Madrid. Toda uma vitalidade que se manifesta nos encontros e nas publicações. Mas este desenvolvimento não deve fazer esquecer as fraquezas da animação numa identificação nem sempre simples das formações e das profissões.

Esta interrogação acerca dos valores e da sua inscrição na acção continua pertinente para os animadores numa sociedade que podemos definir como uma tensão continua, uma relação dialéctica entre o desabrochar de um individualismo responsável e autentico e uma vida colectiva: a prática democrática situa-se nesta “oposição entre o polo da responsabilização colectiva e o da responsabilização individual, entre a democracia política e a democracia participativa)[24]. Esta dinamização respeita também ao sector da animação. Esta não pode ser reduzida a um feixe de práticas, de métodos, de reflexões conceptuais. Ela é um modo de intervenção social, um vector poderoso de mudança, logo um actor político que articula atitudes humanas, modos de organização, vistas éticas. É portanto a sua postura política que os profissionais da animação colocam antes de tudo: devem portanto ser pertinentes e impertinentes, quer dizer capazes de distinguir o comando institucional da necessidade social, decisores e grupos de população, de diferenciar legitimidade política dos eleitos, e sabedoria prática das populações, capazes também de serem reconhecidos pelo conjunto dos actores respectivos, mesmo se este reconhecimento não for estabelecido como uma evidência espontânea aos olhos de uns ou de outros. Para resumir o paradoxo que é constitutivo do pensamento e da acção dos animadores, proponho apelar ao sociólogo francês recentemente falecido Jean Baudrillard, que declarou: “É preciso viver inteligentemente com o sistema e em revolta contra as suas consequências”.

 

 

           


 

[1] J.-Cl. Gillet (sous la dir. de), Les associations, des espaces entre utopies et pragmatismes, Presses Universitaires de Bordeaux, 2001.

[2] L. Althusser, Cahiers pour l’analyse, n°8, Paris, 1967. 

[3] J.-J. Rousseau, Du contrat social, coll. Classiques, Ed. Garnier, Paris, 1969.

 

[4] Contracção entre negro e metropolitano, esta palavra designa a frança entendida como centralizadora e colonial.

[5] Ph. Corcuff, La société de verre. Pour une éthique de la fragilité, éd. A. Colin, 2002. Le compte-rendu de sa conférence à Bordeaux m’a aussi servi pour ce passage. Il est paru dans Espaces MARX : Aquitaine Bordeaux Gironde, Lettre trimestrielle, n°10, janvier-mars 2005.

[6] Je renvoie ici à la lecture de Cl. Dubar, La crise des identités. L’interprétation d’une mutation, PUF, 2000.

[7] On doit aussi consulter son dernier ouvrage écrit avec J. Ion et Fr. de Singly, Politiques de l’individualisme : entre sociologie et philosophie, coll. Discordes, éd. Textuel.

[8] Cf. chapitre 2 de mon ouvrage L’animation en questions, coll. Trames, éd. Erès, Toulouse, 2006.

[9] On peut aussi lire  Le lien social de P. Bourrier, coll. Folio Essais, éd. Gallimard, 2005.

[10] Ch.-H. Cuin et Fr. Gresle, Histoire de la sociologie, tome 1, coll. Repères, La découverte, 1992.

[11] H. Moser, mutations sociales et animation, chap. 3 de l’Animation socioculturelle. Fondements, modèles et pratiques, H. Moser, E. Müller, H. Wettstein, A. Willener, ies Editions, Genève 2004.

[12] N. Elias, La société des individus, éd. Fayard, 1991.

[13] H. Arendt, Condition de l’homme moderne. Tome 1 : la condition humaine, Nathan, 2005.

[14] E. Schweisguth, Les valeurs des Européens, entretien, site de la Sofres, juin 2004. Une nouvelle enquête a été publiée en 2005 et reste visible sur le même site.

[15] dont l’analyse des résultats a été publiée sous la direction de P. Bréchon, professeur de science politique à L’Institut d’Etudes Politiques de Grenoble, Les valeurs des Français - Evolutions de 1980 à 2000, Armand Colin, 2000.

[16] J.-Fr. Tchernia, Les valeurs des Français, entretien accordé en l’an 2000 à la SOFRES.

[17] J.-P. Augustin, Loisirs et société : un nouveau rapport au travail. In La transition professionnelle vers les métiers de l’animation et du sport,  La Documentation française, 2006.

[18] S. Akin et O. Douard,  « Qui sont les animateurs aujourd’hui ? », in Espaces de travail, espaces de paroles sous la dir. de J. Richard-Zapella, Labo. Dyalang,  Presses Universitaires de Rouen, 1999.

[19] Je vais sûrement répéter des propos déjà tenus dans mes écrits, mais, pour reprendre la phrase de Camus :  “Tout a été dit sur tout. Mais comme personne n’écoutait, je vais me permettre de reprendre ».

[20] Je renvoie ici aux différents modèles de triangulation présentés dans « Animation et animateurs. Le sens de l’action », coll. Technologie de l’action sociale, éd. l’Harmattan, 1995 et dans « l’Animation professionnelle », déjà citée.

[21] A. J. Colom et alii. Modelos de intervención socio-educativa. Madrid : Narceo, 1987.

[22] V. J. Ventosa, Fuentes de la animación sociocultural en Europa, Ed. CCS, 2002.

[23] L'animation professionnelle et volontaire dans 20 pays (sous la direction de J.-Cl. Gillet), op. cit. et CDROM des Actes du colloque "L'animation en France et ses analogies à l'étranger" (4/5/6 novembre 2003), sous la direction de J.-Cl. Gillet (supplément aux Cahiers de l'Isiat, n°6, automne 2004), Bordeaux, décembre 2004. 

[24] Y. Thériault, « l’avenir de la social-démocratie au Québec » dans M. Venne (dir.), L’annuaire du Québec 2004, Montréal, Fides, 2004.

courrier  : jeanclaudegillet@free.fr / Web : http://jeanclaudegillet.free.fr / http://colloque.cs.free.fr
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