CHAVES - Avril 2006

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 A Animação entre a Marcha e a Democracia
Chaves (Portugal) Avril 2006

 Jean-Claude Gillet

Professor emérito na
Universidade Michel de Montaigne (Bordéus 3)

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 Introdução

A globalização da economia, a flexibilidade estimulada, a instabilidade que se desenvolve, e não só na América Latina ou em África, mas também na Europa, o triunfo de uma lógica mercantil da qual a constituição europeia queria ser advogada, todos estes aspectos modificam profundamente o que durante uma década chamamos de modernidade.

Estaremos na presença do indivíduo que ninguém chama de indivíduo «hiper moderno»?

Um tal contexto, se é descrito de forma pertinente, coloca à animação e aos seus animadores, uma pergunta fundamental sobre o destino da ideologia que os constitui em França há quarenta anos e sobre a metodologia que os organiza à volta de acções colectivas, grupais ou comunitárias.

Forçosamente, é de constatar que a co-habitação feliz dos mundos, das construções identitárias plurais e das suas ligações para formar uma sociedade, leva a uma reflexão sobre a suposta oposição entre «individualização e acção colectiva», contradição social que traria um «handicap» para o animador e criaria, nomeadamente, uma impotência relativa das federações da educação popular de hoje. Esta hipótese merece alguma atenção. Esta individualização, esta personalização deverão ser postas em oposição com uma diligência colectiva, a primeira muitas vezes reduzida à ideia segundo a qual o indivíduo seria o valor supremo (mesmo confinado à sua dimensão moral designada pejorativamente com os termos de egoísmo e de falta de valores de solidariedade), a segunda sendo apenas a chave da abóbada da libertação do homem acorrentado.

Para por em causa esta visão, é necessário aprofundarmos e voltar atrás na nossa história: Ao séc. XVIII, à lei sagrada que marca toda a vida social e lhe dá sentido, onde o «eu» se confunde com o «sujeito» submisso ao Rei, representante de Deus à face da terra, se substitui com a subida da burguesia e da Revolução Francesa, o anúncio de uma nova era, era em que o séc. XIX é a primeira etapa simbólica. A era das paixões e das lutas. No plano político vem a revolução, que não é um «jantar de gala» mas antes um período onde os mortos, os sofrimentos e o sangue marcam o conflito entre os antigos e os novos mestres.

O fim do séc. XX e o início do séc. XXI confirmam esse recuo da regulação social pela disciplina que faz do agente individual o responsável da sua acção[1]. Este novo individualismo assinala certamente uma defesa generalizada sobre a vida privada, mas também (e sobretudo?), a subida da norma da autonomia. A percepção do íntimo modifica-se. Não é só e apenas o lugar do segredo, do «quanto a si» ou da liberdade de consciência, torna-se no que permite de se desligar de um destino com a vantagem da liberdade de escolher a sua vida. Desde então, «a subjectividade tornou-se numa questão colectiva» (Alain Ehrenberg). É aqui que o indivíduo e a sociedade se encontram: a construção de si próprio é, pois, simultaneamente, um sistema de recursos permitindo afirmar e consolidar espaços de autonomia e de liberdade e um sistema de constrangimentos pela responsabilidade que ela induz nas escolhas individuais ao efeito «societal» que ela implica.

O sociólogo R. Boudon recusa também o tema da “decomposição da moral e dos valores nas sociedades pós-industriais: «o presente...dá facilmente a impressão de uma descontinuidade radical porque o comparamos com um passado do qual temos uma imagem «clarificada»...Observamos evoluções, mas não rupturas ou descontinuidade abrupta[2]». Particularmente, não se encontram diferenças entre os comportamentos sociais dos jovens dos anos sessenta e os jovens de hoje: a autoridade é sempre considerada como legítima, mas é necessário que, de ora avante, ela se justifique em prescrições. Mesmo assim, eles acreditam na democracia, mas querem que ela os compreenda. A moral (particularmente, a do respeito pelo outro) é respeitada, mas não o que lhes parece uma proibição injustificável: por exemplo, os casais não casados multiplicam-se mas são tão estáveis como os outros, etc. Ele relembra esta frase de E. Durkheim que parece resumir o seu sistema de análise da evolução dos valores e da «sua estruturação fina e persistente» ”: «o individualismo é um fenómeno que não começa em lado nenhum, mas que se desenvolve sem parar ao longo da história» (id.).[3]

O Geógrafo Social J.-P. Augustin interessa-se também por esta questão, pois que a mutação das actividades de lazer que ele observa «trazem a aparição de valores mais individuais que transformam o relativamente a si, o relativamente aos outros e relativamente ao espaço[4]». Ele vê uma forma positiva «um novo espaço de livre expressão para o exercício do corpo, a cultura e o desenvolvimento de actividades mais espontâneas e mais autónomas». Conclui que, se as divisões entre grupos sociais e classes são sempre perceptíveis, elas são também menos inacessíveis, que antigamente, às relações sociais na empresa, na escola, nas famílias ou através dos lazeres «com as novas solidariedades que se construem, cada uma delas sendo «num e em vários sítios ao mesmo tempo», em práticas associativas, desportivas ou culturais mais flutuantes no seio de uma «sociedade de individualização manifestando uma consciência alargada de pertença, mesmo de multi-pertença», longe da defesa sobre si do individualismo.

Eis que remete ao seu justo valor algumas aproximações pondo em causa definitivamente «o egoísmo» dos franceses e o seu desprezo pelo colectivo, mesmo que seja necessário distinguir as ideias, os factos ou as práticas.

Como recriar instituições como instâncias estruturantes da relação social?

Como pôr em tensão, na acção da animação, um sistema de valores dialéctico entre o próprio e o outro? Como participar na invenção de uma cidadania que experimenta respostas novas à eterna questão do «Quem decide?»? Como redefinir sistemas de deliberação que apelam a uma reflexão sobre o sentido da democracia representativa, participativa, deliberativa, directa?

 Advertência histórica necessária: a recusa francesa da noção de «comunidade».

Durante muito tempo, a República francesa tratou com desconfiança o facto associativo, valorizando antes a relação particular, em nome da igualdade, entre o cidadão e o Estado, representando os nossos interesses em geral. Compreender essas hesitações não pode acontecer sem fazer referência ao pensamento político de J. J. Rousseau e à sua obra, Du Contrat Social. De uma forma por vezes libertário e anarquista antes de tempo, exalta a liberdade do indivíduo. É o grupo de cidadãos reunidos que cria a soberania popular, a qual chega ao ponto de votar a favor dos impostos. Mas, afirma correlativamente uma exigência política em particular: para ele, são apenas pequenos territórios restritos (pequenos estados, cidades) que podem permitir o exercício da virtude dos cidadãos.

O trabalho político não se divide e recusa a delegação de poder, como G. Babeuf (leader pré-comunista da Revolução francesa, fundador da Sociedade da Igualdade), que exige o mandato imperativo e a revogabilidade para todos os representantes do povo.

Rousseau é, na verdade, um pessimista porque ele escreve «a democracia é o feito de um povo de anjos[5]». Consequentemente, para conciliar o inconciliável, quer dizer, a liberdade do indivíduo com as exigências da vida em sociedade, «importa, então, para ter bem enunciado a vontade geral, que não haja sociedade parcial no Estado e que cada cidadão opine apenas de acordo com as suas ideias[6].» Todo o grupo particular é considerado pernicioso e a Democracia tende a reduzir-se à expressão de uma República ilusória recusando todo o grupo intermediário que considera como produtor da desordem. Este princípio político reforça-se dentro de uma exigência moral, a virtude da união. A república democrática supõe implicitamente a unanimidade ignorando a luta e os conflitos.

A Revolução francesa vai inspirar-se em Rousseau e recusar todo agrupamento e associação, ainda mais que os republicanos da época têm também medo do retorno das corporações bem vivas sob a realeza, assim como do nascimento das primeiras organizações de trabalhadores. Toda e qualquer coligação é percebida como uma fractura dentro da única associação soberana reconhecida, a Nação; e um obstáculo à expressão da vontade geral. Será necessário esperar mais de um século para que a proposta de lei Waldeck-Rousseau, um republicano moderado, seja adoptada sob o nome de «lei do 1º de Julho de1901 relativo ao contrato de associação». Esta lei põe em prática um exercício de uma solidariedade intermediária favorecendo a educação dos cidadãos livres, conscientes e responsáveis, à intersecção de uma aproximação individual e societal: «Cada um é livre de se associar, de não se associar, de nunca mais se associar[7]».

Ao fim de contas desta batalha ideológica de antigamente, a associação transformou-se definitivamente numa operadora de mediações entre o cidadão e o Estado: «a associação, afirma Walleck-Rousseau, ensina aos homens a se entreajudarem, a se conhecerem e substitui o egoísmo individual pela lei fecunda da fraternidade». Sem esta lei, nem a educação popular, nem a animação sociocultural teria atingido um tal sucesso: eis um belo exemplo de uma lei republicana favorecendo a expressão do cidadão.

A vida associativa permite uma aprendizagem da ajuda recíproca, o reconhecimento mútuo entre as pessoas, a busca de solidariedade. Ela cria uma moral que recusa o individualismo egoísta. Isto é a «res publica», a coisa pública que advém de uma educação, de uma tomada de consciência (que vem do latim cum-scire, quer dizer saber em comum, saber partilhado) permitindo o desenvolvimento do julgamento pessoal. Pelo contrário, o homem inconsciente é aquele que é incapaz de ter um julgamento autónomo.

Uma tal perspectiva saída da nossa história singular permite compreender a hesitação francesa em utilizar o termo comunidade, hesitação acrescida pela confusão recente introduzida a partir do fenómeno do véu na escola. Em França, a noção de comunidade é, pois, pouco familiar: isto é o resultado de uma concepção antes centralizadora da República ao serviço do interesse geral, não reconhecendo a legitimidade das particularidades (chamados neste caso de particularismos). Esta situação é diferente na maior parte dos Países nórdicos, anglo-saxónicos e da América latina nos quais muitas vezes a constituição (depois do massacre das populações locais pelos colonizadores), foi o resultado de um agregado de grupos juntando restos de povos indígenas, emigrantes de origem europeia, africana e asiática, afirmando, por sua vez, a pertença à cultura do país de acolhimento e a pertença à cultura das suas origens, vivendo assim, uma identidade partilhada.

A acção comunitária é uma forma de organização colectiva que é uma alternativa, por vezes, à acção do serviço social individualizado (à volta do famoso modelo profissional chamado case-work), com a imagem bem conhecida no mundo inteiro, ou quase, do assistente de serviço social, que é, quase sempre e exclusivamente, uma assistente.

Esta acção comunitária apoia-se sobre os recursos humanos de uma comunidade (étnica, linguística, cultural, religiosa ou apenas territorial) em vista de uma mobilização para o desenvolvimento de um território ou de um grupo de forma a responder às necessidades ou exigências que se expressam. Isto pode levar a uma situação conflituosa com diversas autoridades (administrativas, políticas), mas também a projectos comuns negociados entre todos os actores. A acção comunitária pode mutar-se em comunitarismo, desde que toma a forma de uma afirmação integralista, mesmo intolerante da sua identidade: ela pode por em perigo a relação e a comunicação com os outros grupos constitutivos de uma sociedade, de um povo, de uma nação.

Mesmo as expressões «acção colectiva» ou «trabalho de grupo» são pouco utilizadas no campo do trabalho social, tendo as instituições estaduais francesas, sempre travado o desenvolvimento de acções e de reflexões acerca destas práticas.

Ao inverso das noções de «desenvolvimento local», de «democracia participativa», são mais bem aceites, pelo menos, nos discursos. Mas sobretudo, o uso das expressões «associação» e «animação» impuseram-se largamente. A primeira já foi apresentada, é necessário, a partir deste momento, tratar a segunda e abordar rapidamente a história da animação em França e a sua situação actual.

O fim dos anos 60 e o vento de mudança que os acompanharam

A animação sociocultural (ASC) e os seus equipamentos constituem uma tentativa bastante conseguida de promoção pela palavra e pela acção daqueles que experimentam forjar a sua unidade ideológica à volta de valores permitindo à pequena e média burguesia promover a sua «distinção», para parafrasear a obra de P. Bourdieu e de cimentar em termos de grupo social. A história e a sociologia, ao mesmo tempo, vão permitir explicar esse desenvolvimento da animação em França.

Ao que chamávamos, nesses tempos, as «novas camadas sociais intermediárias» (intelectuais, técnicos, engenheiros, nomeadamente funcionários) encontravam nesses equipamentos um meio de se implementarem e de constituir uma base organizacional para afirmar o seu direito de citar e de cidade. O sociólogo J. Ion indica que logo que um grupo social aparece na história, aparece primeiro na cultura, meio de reconhecimento, de constituição de uma identidade, de visibilidade no espaço social.

A ASC não é apenas um campo de acção com cruzamento do «social» e do «cultural», da acção social e da acção cultural: é antes de mais o resultado de um movimento social que procura, com mais ou menos sucesso, nos anos 60, uma aliança política entre as camadas sociais intermediárias e camadas populares e operárias, numa base anti-capitalista, as primeiras desejando ter um papel motor neste projecto alternativo, onde o tema do povo é central.

Seria arriscado esquecer também o facto que parecia anunciar-se o nascimento da ideia de «tempo livre» e de «sociedade do lazer», como resposta a uma sociedade industrial, tecnológica, programada, alienante[8]. Ainda não sabíamos se este tempo livre oposto ao tempo constrangido iria antes orientar-se em direcção a um consumo acrescido na procura de um hedonismo relevante, de um pensamento egoísta para certas categorias sociais, acedendo num período de crescimento a um nível, até aí desconhecido ou em direcção a uma redefinição e uma revitalização da relação social, pelo desenvolvimento da criatividade individual e colectiva, pela troca e pela comunicação: resumindo, nova alienação ou novo humanismo, a perspectiva ficava em aberto. Esta reflexão prolongou-se e prolonga-se ainda em Espanha e na América latina (sobretudo no Uruguai, na Argentina e no Brasil[9]).

Enfim, deve indicar-se a vantagem em França, nesses anos, da psicossociologia, à volta das ideias de Kurt Lewin e de Carl Rogers. A procura do desenvolvimento das relações interpessoais, a utilização de técnicas de dinâmica de grupo e de não-directividade, a contestação das instituições (a luta entre o instituído e o instituto, na pedagogia, a psiquiatria ou o trabalho social) serão os vectores das ideias autogestionárias e de movimentos de contestação antes, durante e depois de Maio de 68. Os actores mais comprometidos do sector sociocultural participarão pouco ou quase nada nos combates anti-capitalistas, feministas, ecológicos, anti-racistas e terceiro-mundistas dessa época.

Em resumo, depois da passagem da tempestade da revolução inacabada, o panorama da ASC parecia caracterizar-se por:

·       Acções, práticas, relações, intervenções;

·       Referente a toda a vida quotidiana dos indivíduos e dos grupos, relacionada com os interesses ou as necessidades políticas, intelectuais, sociais, físicas, no trabalho, nos lazeres e no tempo livre, o divertimento, o relaxamento, as actividades cívicas, as relações de vizinhança, a cultura, na criação e na difusão de obras, na arte e na estética;

·       Essas acções são baseadas no voluntariado dos públicos envolvidos e opõem-se a um simples consumo cultural passivo;

·       As acções exercem-se normalmente em grupo, mesmo se têm efeitos individuais;

·       Com a ajuda de animadores benévolos e cada vez mais profissionais;

·       Em estruturas associativas e territorializadas, com ateliers cada vez mais especializados;

·       Com técnicas que não se reduzem a uma simples metodologia, desde que a ideologia militante da Educação Popular é, ainda muitas vezes a fonte, mesmo se para além das exigências de qualificação e de competência se afirmam cada vez mais.

 As intenções da animação de hoje e suas dificuldades

A ASC deseja desenvolver um ideal democrático no qual há uma busca de relação coerente entre o método e a filosofia da acção proposta: a partir deste momento, toda a organização deve analisar o seu funcionamento institucional, as suas estruturas, a sua adaptação à acção, o poder que ela exerce junto dos grupos da população com as quais constrói um projecto e não mais para as quais trabalha. Esta tentativa (intitulada participativa) é um factor de tomada de consciência das dificuldades de um funcionamento democrático numa sociedade global ou um território local e, ao mesmo tempo, um guia para essas aprendizagens difíceis da democracia, na ligação dirigentes/dirigidos, dominantes/dominados.

É um processo social normal que obriga, sempre sem parar, a nos questionarmos sobre a definição da cidadania num contexto onde o processo de individualização (a sociedade dos indivíduos à procura da sua autonomia) tem dificuldade em favorecer as diligências colectivas.

A figura emblemática do militante sempre disponível, renunciando à sua singularidade no facto de abraçar a causa da sua organização dissolveu-se. As redes operárias desapareceram e os apelos à participação ultrapassam pouco o seu estado de slogan. O saber e a cultura são mais do que nunca, transformadas em mercadoria e as formas tradicionais de solidariedade interrogadas.

No séc. XVIII, ser racional significava que, no homem, paixão e razão não se excluíam, hoje a racionalidade dominante é instrumental e tende a questionar-se unicamente sobre os «meios» e do «como», não mais a questão dos «valores» e dos «porquês». A tomada operacional do capitalismo liberal sobre o pensamento do sujeito tende a dar saída ao imaginário social e o projecto a concluir de um outro tipo de sociedade que pode daí derivar. Um colega espanhol recorda-nos judiciosamente que «a ONU…a través de su Informe sobre el Desarrollo Humano de 1993 (PNUD) concluye que tan solo un 10% de la población mundial influye en las decisiones que afectan a su vida[10]». É neste sentido que podemos dizer que o capitalismo violenta a democracia.

É a razão pela qual o animador deve aprender a navegar contra o vento, a jogar, a desempenhar um papel pertinente, a transformar-se um estratega inteligente no sentido de ser capaz de reunir, de calcular, de organizar, realizando e sabendo dosear combinações onde a arte da astúcia tem o seu lugar.

Nesse jogo democrático nos quais os animadores participam, neste objectivo de mudança que está na base da visão democrática, a animação (e esboço aqui um princípio de definição) pode afirmar um papel positivo considerando-se como uma pedagogia onde se pode experimentar o reconhecimento do outro, a possibilidade para cada um, se assim o desejar, de exercer um poder, mesmo mínimo que seja e uma capacidade de transformação da realidade, participando à elaboração da lei democrática e das proibições que daí advêm, para fazer face às turbulências da desordem, da folia, da desmedida. Mobilizada para a mudança das instituições, a animação, com o objectivo educativo que é o seu, procura fazer com que cada um perceba as situações que vive, possa reagir contra os constrangimentos insuportáveis que vai sofrendo e agir para afirmar, ao mesmo tempo, o seu lugar na relação social e colectiva a tecer e também o carácter irredutível da sua singularidade individual.

A chegada da esquerda ao poder

Uma outra etapa começa nos meados dos anos 70 num período de voltar a questionar. Pôr em questão um urbanismo que começa a sufocar; repor em causa o papel do Estado; repor em causa os equipamentos do bairro. Depois dos Trinta Gloriosos, esses anos são aqueles da dúvida, quanto mais que a crise económica, o aumento do desemprego e a gestão da paz social nos arrabaldes difíceis, lançam novos desafios ao poderes públicos.

Quando o poder socialista se instala em 1981, não há uma doutrina clara e, durante os primeiros tempos do septenato, as comissões e as relações especializadas não vão faltar. Estruturas foram implementadas rapidamente, a maior parte das vezes do tipo interministerial, funcionando como administrações de missão e elaborando novos dispositivos de intervenção no terreno. O selo de urgência, marca, então, essas iniciativas surgidas sob o constrangimento da crise e dos acontecimentos: a primeira operação «anti Verão quente» é lançada desde 1981 a seguir às vagas incendiárias de Minguettes, na região Lyonesa. Por outro lado, a maior parte desses dispositivos querem-se experimentais e, de facto, o seu funcionamento encontra-se limitado a certas aglomerações (é o caso das operações ditas de «desenvolvimento social dos bairros») ou aos únicos departamentos mais urbanizados (as «operações prevenção de Verão»).

A estas quatro características acrescenta-se a importância tomada pelo escalão local e, particularmente, pelo município. Foi ele que ganhou o aumento de reconhecimento, de poder e de legitimidade. Nalguns casos, vimos criar-se no plano local uma pequena tecnocracia do social, formados por pessoas escolhidas, tendo elas, a maior parte das vezes, competências profissionais e animadores responsáveis de associações próximas da linha política municipal e, por fim, responsáveis administrativos departamentais dos diversos ministérios envolvidos[11]. Essas comissões, em que os membros são geralmente cooptados, envolvem-se e preparam dossiers que são submetidos aos presidentes ou aos conselheiros gerais.

Em todo o caso, os dispositivos reforçam o movimento de municipalização da animação, comprometido pela edificação de equipamentos públicos e da criação de postos de animadores profissionais; eles diversificam as funções de intervenção pondo em contribuição as redes profissionais da educação popular e do sector associativo.

O animador participa, junto dos militantes e dos benévolos das redes associativas, à animação dos territórios ou do Estado, depois de ter desenvolvido, a nível central, um papel decisivo de impulso, deixa de ora avante, os municípios e as associações assegurar a gestão do pessoal da animação. Esta mudança aparece a dois níveis. Primeiro, o Estado delegou uma parte das suas atribuições e escolheu progressivamente formas descentralizadas, facilitando através de uma política contratual, a colocação de instituições menos rígidas e melhor adaptadas aos particularismos locais. A animação ocupa um lugar de escolha nas orientações políticas dos municípios.

A elevação dos profissionais de animação explica-se por uma parte importante, pela atracção que exerceram as novas funções de animação nos últimos trinta anos, se calhar, pelas necessidades urbanas que apareceram ao mesmo tempo e às quais tiveram de responder subitamente. Esses actores profissionais fazem parte do agentes que devem produzir a necessidade da sua acção em vez de ajustar as suas ambições a lugares já existentes. Por esta via, as práticas sociais efectuadas num quadro de obras e movimentos de juventude, pois nos equipamentos sócio-culturais ou no movimento desportivo, são determinantes na escolha do emprego que aparece como resultado da acumulação de um capital técnico vivido tanto ou mais como aquele de uma formação específica. O limite entre o militantismo, o trabalho benévolo e o emprego são difíceis de circunscrever. Este fenómeno é característico de uma mobilidade social relativa que se realiza, para as camadas médias, na cidade e no tempo fora do trabalho.

O animador: um produtor de tempo e de espaços de mediação

Um profissional de animação deve abordar o seu território como um espaço onde se confrontam os actores em que as lógicas de acção se jogam numa rede de constrangimentos e de recursos num campo atravessado pelas suas lógicas e estruturado segundo as pertenças e as referências que são aquelas dos actores envolvidos (grupos, organizações, instituições).

A construção pelo animador de um jogo subtil de reequilíbrio dos poderes, a sua capacidade de dialogar, de escutar, de dar a possibilidade aos diferentes grupos de negociar, de pôr em funcionamento as transacções a partir de compromissos, a sua capacidade de fazer relacionar os homens que pressupõem dimensões psicológicas, económicas, culturais, de comunicação, a sua capacidade relacional e operacional, de conceber e organizar acções e projectos na cooperação com os actores, pode ser chamada de “competência estratégica”. Há sempre uma ligação entre competência e acção. Trata-se de «um fazer», de uma realização, de um problema a resolver. Para toda uma corrente das ciências da educação, disciplina à qual pertenço, ela é contextual, quer dizer que corresponde a uma dada situação profissional, integrando frequentemente o cognitivo, o activo e o psico-relacional. É integradora das capacidades adicionadas mas combinadas, construídas, estruturadas. É o conjunto articulado das capacidades que lhe permite tornar-se competência.

A colocação em funcionamento de uma estratégia, a tomada de oportunidades, quer dizer, a conjunção de encontros no momento certo para tentar chegar ao fim (aquilo a que podemos chamar também, de elemento-déclic ou detonador), a constituição de um grupo ou de um conjunto de grupos à volta de um projecto comum (isto é, de uma representação que lhes é comum), a colocação em movimento concreto, a localização das suas fraquezas e a sua correcção numa diligência avaliativa regular, a procura de soluções negociadas, eis a complexidade da tarefa que espera o animador. Ela espera-o em qualquer virar de esquina: ele pode, também, ficar parado, imobilizado.

Esta competência estratégica, esta inteligência exigem a polivalência do generalista:

·       Capaz de analisar as situações locais nas suas dimensões sociais, económicas, culturais, demográficas, políticas;

·       Capaz de estabelecer diagnósticos e uma hierarquia das competições oriundas desta análise;

·       Capaz de construir proposições de tratamento de escrita em termos de objectivos, de meios, de calendário, para que sejam submetidas à reflexão e ao debate de todos os parceiros envolvidos;

·       Capaz de recensear os parceiros associáveis, de os mobilizar para o progresso ou impulso das acções propostas, em primeiro, as iniciadas ou pedidas pelos grupos de pessoas ou de populações,

·       Capaz de elaborar meios de medir os resultados e de os pôr em funcionamento;

·       Capaz de conduzir tecnicamente as acções decididas e delas tomar conta.

 

O animador é um facilitador de relações, capaz de compreender as competições de uma associação, de um bairro, de uma colectividade local e de fazer com que cada actor possa actuar sobre a cena social, em dinâmicas localizadas e de agir sobre essas competições em função dos seus interesses (dirão sociólogos), dos seus desejos (dirão psicólogos) e numa perspectiva de promoção e de desenvolvimento social.

Não chega, por iniciativas de governo local, recriar uma relação social horizontal: é uma relação política, produtora da relação social vertical pelos contra poderes assim suscitado pelo jogo dos actores, que é também interrogado. É a questão da democracia com as suas formas de entrelaçamento «espaços públicos autónomos e, do outro, as esferas de acção através do dinheiro e do poder administrativo», que se torna central, escreve Jurgen Habermas (1990). O nosso colega, o professor português Américo Peres, da UTAD, escreve com justeza, «no que chamamos Glocal, as comunidades são unidades de base para a vida em comum e oferecem potencialidades muito ricas e fortes para o desenvolvimento do processo de cidadania e de democratização. Um dos maiores desafios no que diz respeito à contribuição da ASC no reencontro entre as comunidades, assim como no quadro da responsabilização local, no que diz respeito ao processo de mudança e de transformação global[12]».

Os efeitos da acção de animador não são desmedidos. Nada lhe pedimos, não mais hoje que ontem (felizmente, pois não é o seu papel), de alterar as relações sociais mas simplesmente de fazer com que uma regulação à margem, nos vazios, nos interstícios, se possam pôr em funcionamento, logo que, por exemplo, as situações de exclusão ou de rejeição se tornam insuportáveis para aqueles que são as vítimas.

Mas a «margem» oferece uma luz sobre o funcionamento do centro, sendo possível a criação de dinâmicas sociais inesperadas. Adoptar, ao inverso, atitudes de desconfiança ou de dependência, talvez um pouco das duas ao mesmo tempo em frente ao político, corre o risco de as imobilizar numa posição de perdedor. O animador encontra-se no cruzamento de várias lógicas diferentes das quais não é fácil esclarecer as confusões. A sua intervenção situa-se na interface de uma pluralidade de actores e portanto, de uma pluralidade de estratégias, em ligação a uma diversidade de lógicas que as sustentam. Há um trabalho individual a levar a cabo sobre a forma pela qual a sua intervenção pode produzir uma dinâmica, um trabalho de conceptualização da sua execução que se torna num meio de desencadear um diálogo com os actores, de os ajudar a formular objectivos comuns e a executá-los.

Reduzir a distância entre os decisores e os «decididos», entre os constrangimentos impostos pelas estruturas e a procura da autonomia dos actores, eis objectivos para o animador que encontra, assim, uma razão de ser na procura de soluções alternativas eficazes e possíveis (mas parciais). É esta competência estratégica que está no centro da identidade profissional desses animadores e que, articulando diversas capacidades tais que a apreensão de jogos sociais, o domínio de diferentes linguagens comunicativas e uma flexibilidade comportamental, irá permitir-lhes elaborar um dos pólos essenciais da sua qualificação. O animador puxa então, da sua legitimidade na construção das suas ligações entre diversas capacidades, fazendo-os convergir para um ponto nodal, em direcção à centralidade do problema proposto de e pelo seu ambiente. Esta habilidade apenas existe em situação, em interacções, relações de forças, um dado contexto local e sócio-histórico. Ela é uma inteligência individual e colectiva das situações, consideradas no conjunto da sua complexidade, significando ao mesmo tempo um excesso radical da distinção entre o saber e saber-fazer. É assim que se pode elaborar a «profissionalidade» dos animadores centrados sobre a noção de competências, mobilizando saberes compósitos (saberes do registo do social, do cultural, da gestão, da técnica) e complexos (saberes teóricos, metodológicos ou processuais, práticos e empíricos). As competências são transversais, genéricas, à volta de atitudes relacionais e de comunicação, de capacidades relativas à imagem de si (ter confiança em si, ter consciência das suas potencialidades), capacidades de adaptação e de mudança, em função da diversidade de comportamentos, de opiniões, de referências culturais e ideológicas, de representações presentes na sociedade.

É preciso ter em conta, claro, no domínio das competências do animador, do seu nível de qualificação, pela extensão da sua experiência reflectida, pelo alcance das suas redes pessoais e sociais, etc.

Em resumo, o animador pode tornar-se um estratega se for capaz de combinar, de estabelecer uma combinatória, para fazer trabalhar em conjunto, grupos e organizações, nas quais as orientações e os objectivos nem sempre coincidam, para encontrar os pontos de consenso que incitam a juntar forças, para fazer negociar e mesmo fazer aceitar desacordos sem cair em confrontos inúteis. O animador necessita de vários modelos de intervenção em função dos espaços, dos tempos e dos actores envolvidos, modelos estruturados à volta de três pólos: os valores e os direitos, a técnica nos serviços oferecidos, a mediação estratégica.[13]

A animação, em relação a outras profissões do Trabalho social, não está assim tão mal situada, tendo aberturas suficientes sobre intervenções sociais na sua totalidade, uma maior polivalência e uma maior mobilidade[14]. Nem corporativista, nem ideólogo, o animador pode construir a sua identidade profissional à volta de ou dos projectos que ele tem; ele pode organizar a sua prática com uma autonomia relativa, com bastante margem de manobra; pode afirmar o seu saber-fazer particular à volta de estratégias pertinentes, em ligação com a sua ética profissional feita, por sua vez, na conflituosidade, de solidariedade e de responsabilidade com respeito aos cidadãos e da sua instituição de pertença.

Mas esta orientação tomada por cada animador, não será suficiente para obter uma posição reconhecida. Toda a posição é também, em parte, o resultado de uma luta colectiva de um conjunto de profissionais organizados para dar coerência e força na luta de grupos sócio-profissionais ao nível «societal» (a esse respeito, o desenvolvimento está longe de acabar[15]) e, por outro lado, supõe uma clarificação das missões que lhes são confiadas pelos decisores políticos que enquadram de forma directa ou indirecta a sua acção (o que está longe de ser evidente, quanto a todo o observador). Que saibam que estas duas aproximações são interactivas: é portanto, a eles, de jogarem para modificar as relações de força existentes à volta das questões centrais da sociedade francesa deste fim de século: os bairros frágeis e de desenvolvimento urbano[16], as desigualdades sociais e culturais, a democracia enfraquecida, a crise da relação social, civil e política. Segundo o estado da sua organização colectiva e a orientação que tomar em frente aos públicos com os quais trabalham, irão criar, com certeza, adversários, mas também aliados.

Cabe-lhes ponderar sobre as decisões.

 


[1] Cf. Les sociologues N. Elias (la société des individus, Paris, Fayard, 1991), A. Ehrenberg (l´individu incertain, Coll. Pluriel, Hachette, 1995; la fatigue d´être soi: dépression et société, Coll. Poches, Odile Jacob, 1998), J.- Cl. Kaufmann (l´invention de soi, Armand Colin, 2004). Podemos também citar a lógica hedonista da qual fala o filósofo M. Onfray, «la lutte des places» que se substitui à luta das classes segundo o sociólogo V. de Gaulejac.

[2] R. Boudon, não há “declínio de valores”, entrevista in Cultures et mouvement, nº 54, Février 2003

[3] R. Boudon cita um outro aforismo de V. Hugo: «Há tanto retrocesso de ideias como há retrocesso de rios» para significar a estabilidade relativa dos valores.

[4] J. P. Augustin, Loisirs et société: un nouveau rapport au travail. In La transition professionnelle vers les métiers de l´animation et du sport, la Documentation française, 2005.

[5] Citado por L. Althusser, Cahiers pour l ´analyse, nº 8, Paris, 1967.

[6] J.-J. Rousseau, Du contrat social, coll. Classiques, Ed. Garnier, Paris, 1969.

[7] J.-Cl. Gillet (sob a dir. de), Les associations, des places entre utopies et pragmatismes, Presses Universitaires de Bordeaux, 2001.

[8] Cf. les travaux de J. Dumazedier, nomeadamente La révolution culturelle du temps libre: 1968-1988, coll. Société, éd. Méridiens, Klincksiek, 1988.

[9] J.-Cl. Gillet (sob a dir. de), L´animation professionnelle et volontaires dans 20 pays, Coll. Animation et Territoires, Ed. L´Harmattan, 2004.

[10] V. J. Ventosa, Fuentes de la animación sociocultural en Europa, Ed. CCS, 2002.

[11] F. Dubet, A. Jazouli et D. Lapeyronnie, LÉtat et les jeunes. Editions ouvrières, Paris, 1985.

[12] A. Nunes Peres, Animation et animateurs au Portugal, in L´animation professionnelle et volontaire dans 20 pays, op. cit.

[13] J.-Cl. Gillet, Animation et animateurs, le sens de l´action. Coll. Technologie de l´action sociale, Ed. L´Harmattan, 1995.

[14] Ch. Bachmann, «L´animation dans le secteur social: une mutation des qualifications». In DEFA Venir, Actes des journées d´études de Marly-le-Roi, 23-24 novembre 1987.

[15] J. P. Augustin et J.- Cl. Gillet, L´animation professionnelle. Histoire, acteurs, enjeux. Coll. Débats/Jeunesses, Ed. L´Harmattan, Paris, 2000.

[16] J.-P. Augustin et J.-Cl. Gillet (sob a dir. de), Quartiers fragiles, développement urbain et animation. Bordeaux: P.U.B., 1996.

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